365 - 28/01/2012
Written by Valdir Antonelli Sunday, 29 January 2012 20:13
O 365 talvez tenha sido criado na hora errada, tivesse lançado seu primeiro disco uns dois anos antes, em 1985, e era bem capaz de ter estourado e, no lugar de levar apenas 500 pessoas ao SESC Belenzinho, lotaria um Credicard Hall de fãs loucos para relembrar seus grandes sucessos.
Quando a banda lançou seu primeiro EP com oito canções, em 1987, os bons tempos do rock nacional nos anos 1980 estavam chegando ao fim, apesar de ninguém ter ideia de que isso estava por acontecer. Das oito faixas, sete tocaram no rádio – apenas África não entrou na programação da saudosa 89FM de São Paulo – e São Paulo se tornou um dos hinos do chamado rock paulista, e até hoje é lembrada por várias outras bandas quando querem homenagear a cidade.
Seu segundo disco, Cenas de Um Novo País (1990) foi um fracasso de vendas, apesar de trazer ótimas faixas como Cegos Movimentos, Anos 70 e Berço Esplêndido, mas já era tarde. O Brasil vivia a fase dos planos econômicos, que simplesmente
desmantelaram uma economia já em frangalhos. Em 1990 chega o mal fadado Plano Collor, que congelou as aplicações dos brasileiros e quase destruiu o mercado de discos do País. A banda até tentou mais uma vez e lançou Do Outro Lado do Rio, em 1995, mas os jovens não estavam mais a fim de ouvir o rock de combate feito pelo 365.
E foi esse rock de combate que as quase 500 pessoas que foram a Comedoria do SESC Belenzinho neste sábado, dia 28 de janeiro, queriam ouvir.
Pontualmente – essa é uma das melhores coisas dos shows nos SESCs – o grupo subiu ao palco para, pela primeira vez na carreira, nas palavras do vocalista Finho, tocar todas as músicas de seus dois primeiros álbuns na sequência. A ordem das músicas foi idêntica a ordem das faixas nos dois álbuns, então todo mundo sabia o que ia acontecer? Não, convidados ilustres ajudaram na festa.
O primeiro foi Mau, líder dos Garotos Podres, junto de Mingau, baixista do Ultraje – e que já passou por diversas bandas punk dos anos 80. Com Mau, o 365 apresentou Grandola Vila Morena (a versão que saiu na coletânea Não São Paulo é maravilhosa),
uma homenagem da banda a Revolução dos Cravos em Portugal. Mau também cantou Johnny, clássico do Garotos Podres. Depois foi a vez de Fábio Golfetti, do Violeta de Outono, em uma versão para The House of Rising Sun, do Animals, e para uma versão de Outono, de sua banda.
Na apresentação também ficou claro a força das canções do EP de estreia, principalmente entre o público, que cantou todas as letras. Mas também ficou claro que a veia política da banda estava um passo à frente das demais bandas punks daqueles tempos e também de agora. O 365, assim como o Inocentes e o Cólera, conseguia passar sua mensagem de modo fácil, com letras interessantes e sem o ranço esquerdista de muitas bandas atuais, que apenas repetem o discurso, sem entender ao certo o que estão falando.
Infelizmente, o jovem brasileiro, que é quem consume música, lá nos idos do começo da década de 1990 não estava lá muito a fim de pensar em revolucionar alguma coisa. Queria apenas curtir, sem gastar os neurônios. Aí todos sabem o que aconteceu, anos e mais anos em que o rock produzido no Brasil quase morreu soterrado por estilos, digamos, mais palatáveis.
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