Garotos Podres - Mais Podres Que...

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divulgaçãoO disco, com um garoto rechonchudo de um lado e um menino passando fome na  Etiópia do outro, era a síntese do tipo de música que tocava nas rádios. De um lado, os engomadinhos bancados pelas grandes gravadoras; do outro, meia dúzia de bandas independentes que conseguiam furar o cerco das rádios e emplacavam uma ou outra música, unicamente baseada no talento de seus intérpretes. Não é preciso dizer que o Garotos Podres, banda formada em 1982, em Mauá, se encaixava no segundo grupo com seu punk rock recheado de críticas à sociedade, ao consumismo e à mídia, além de uma ode à falta de rumo da juventude brasileira em Eu Não Sei o Que Quero.

O sucesso do disco, principalmente ajudado pelo hoje hit Anarquia Oi!, foi tanto que a banda chegou a vender 50 mil cópias do trabalho, um número expressivo para um trabalho totalmente independente. A canção entrou na programação da maioria das ´rádios rock´ e passou a fazer a festa em danceterias da moda. A sujeira dos arranjos, as letras simplistas e diretas faziam a cabeça da molecadinha que começava a crescer ouvindo o tal do rock nacional. Era a rebeldia punk que tomava de assalto os jovens já cansados de tanta censura e da falta de expectativa, sentindo-se totalmente em sintonia com as letras escritas pela banda.

O grande senão desta história toda, foi exatamente o sucesso alcançado pelos Garotos Podres, tendo suas canções executadas onde nenhuma outra banda punk conseguiu êxito. Se por um lado, isso abriu caminho para que Inocentes, Espermogramix, Cólera e até mesmo as Mercenárias e os Replicantes, a exposição da banda acabou transformando canções de cunho revolucionário em apenas mais um produto midiático. Um produto do qual o conteúdo não tinha importância, mas sim o alcance do mesmo em número de pessoas. Pouco importava para os ´novos´ fãs da banda se as letras mostravam uma certa politização juvenil, o que valia era o barulho, a bagunça que, erradamente em muitos casos, era sinônimo de punk rock e filosofia punk. Tanto que não era difícil ver um jovem pogando ao som de Garotos Podres e dançando alegremente com Dr. Silvana e Cia em alguma danceteria da moda. Sai a ideologia, entra apenas a diversão.

Não que um disco punk não deva, ou não possa, ser algo para diversão, mas o valor do trabalho de estréia dos Garotos Podres se perdeu exatamente quando sua música virou produto de consumo e foi consumida de forma errada. Boa parte das mais de 50 mil cópias vendidas foram para pessoas que sequer se importavam com a mensagem por trás de Papai Noel Velho Batuta ou de Vou Fazer Coco. O que valia era apenas espinafrar os mais velhos com aquela música barulhenta e cheia de palavrões.

Hoje, por mais simplistas que as letras possam ser, é possível analisá-las com outra ótica. O resultado é que boa parte da juventude nos anos 1980 perdeu o bonde da história e não conseguiu fazer com que o país mudasse em alguma coisa, afinal a letra de Papai Noel ou Vou Fazer Coco são extremamente atuais, mesmo que não passassem de panfletos políticos naquele tempo.

Por Valdir Antonelli

 

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