Garotos Podres - Mais Podres Que...
Written by Valdir Antonelli Thursday, 15 March 2007 21:00
O
disco, com um garoto rechonchudo de um lado e um menino passando fome
na Etiópia do outro, era a síntese do tipo de música que tocava nas
rádios. De um lado, os engomadinhos bancados pelas grandes gravadoras;
do outro, meia dúzia de bandas independentes que conseguiam furar o
cerco das rádios e emplacavam uma ou outra música, unicamente baseada
no talento de seus intérpretes. Não é preciso dizer que o Garotos
Podres, banda formada em 1982, em Mauá, se encaixava no segundo grupo
com seu punk rock recheado de críticas à sociedade, ao consumismo e à
mídia, além de uma ode à falta de rumo da juventude brasileira em Eu
Não Sei o Que Quero.
O sucesso do disco, principalmente ajudado pelo hoje hit Anarquia Oi!, foi tanto que a banda chegou a vender 50 mil cópias do trabalho, um número expressivo para um trabalho totalmente independente. A canção entrou na programação da maioria das ´rádios rock´ e passou a fazer a festa em danceterias da moda. A sujeira dos arranjos, as letras simplistas e diretas faziam a cabeça da molecadinha que começava a crescer ouvindo o tal do rock nacional. Era a rebeldia punk que tomava de assalto os jovens já cansados de tanta censura e da falta de expectativa, sentindo-se totalmente em sintonia com as letras escritas pela banda.
O grande senão desta história toda, foi exatamente o sucesso alcançado pelos Garotos Podres, tendo suas canções executadas onde nenhuma outra banda punk conseguiu êxito. Se por um lado, isso abriu caminho para que Inocentes, Espermogramix, Cólera e até mesmo as Mercenárias e os Replicantes, a exposição da banda acabou transformando canções de cunho revolucionário em apenas mais um produto midiático. Um produto do qual o conteúdo não tinha importância, mas sim o alcance do mesmo em número de pessoas. Pouco importava para os ´novos´ fãs da banda se as letras mostravam uma certa politização juvenil, o que valia era o barulho, a bagunça que, erradamente em muitos casos, era sinônimo de punk rock e filosofia punk. Tanto que não era difícil ver um jovem pogando ao som de Garotos Podres e dançando alegremente com Dr. Silvana e Cia em alguma danceteria da moda. Sai a ideologia, entra apenas a diversão.
Não que um disco punk não deva, ou não possa, ser algo para diversão, mas o valor do trabalho de estréia dos Garotos Podres se perdeu exatamente quando sua música virou produto de consumo e foi consumida de forma errada. Boa parte das mais de 50 mil cópias vendidas foram para pessoas que sequer se importavam com a mensagem por trás de Papai Noel Velho Batuta ou de Vou Fazer Coco. O que valia era apenas espinafrar os mais velhos com aquela música barulhenta e cheia de palavrões.
Hoje, por mais simplistas que as letras possam ser, é possível analisá-las com outra ótica. O resultado é que boa parte da juventude nos anos 1980 perdeu o bonde da história e não conseguiu fazer com que o país mudasse em alguma coisa, afinal a letra de Papai Noel ou Vou Fazer Coco são extremamente atuais, mesmo que não passassem de panfletos políticos naquele tempo.
Por Valdir Antonelli

Opinião 


