Punk

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Muita gente fala que o punk rock foi criado por jovens que estavam revoltados com os rumos que o rock estava tomando, já que nos anos 70 o progressivo estava no seu auge, com shows cada vez mais distantes da realidade daquele cara que estava na platéia - afinal não era para qualquer um construir canções com mais de 15 minutos de duração, várias estruturas musicais e solos extremamente técnicos. O rock naquele tempo tinha virado espetáculo, onde não bastava a música ser boa, tinha que existir efeitos, roupas brilhantes, iluminação destacando cada passagem de cada música e ao público restava apenas o ato de ouvir e ver, não havia realmente uma participação efetiva dos fãs - nisso realmente o punk rock revolucionou, criando o tal do Do It Yourself, o Faça Você Mesmo, onde o moleque que ia num show punk saia de lá e montava a sua própria banda. Tal coisa era impensável para o progressivo. Mas falar que este foi o motivo para o nascimento do punk rock é um tanto infantil, afinal continuavam aparecendo bandas que apostavam em um som mais simples e sem rodeios, principalmente nos Estados Unidos, mas não podemos negar que o sucesso realmente estava com o pessoal do progressivo e que hora ou outra isso iria saturar a molecada que é louca por novidades. E foi este o gancho que o punk pegou.
 
Antes mesmo de Yes, Genesis e Cia Ltda. chegarem ao estrelato, bandas como Stooges e seu tresloucado líder, Iggy Pop, MC5, com suas letras políticas e New York Dools, com o visual andrógino, já plantavam as sementes o punk rock - e mesmo antes deles, lá pelos anos 50, com os Trashmen com sua surf music tosca -além, é claro, dos Ramones, ícones do movimento, assumindo um visual e uma sonoridade que virou marca registrada do que viria a ser chamado punk, mas ainda sem se tocarem que eram os pais do estilo. Até mesmo Lou Reed e seu Velvet Underground, lá por 65,  já trazia uma das sementes do movimento, com seu som mais cru e direto, fugindo da psicodelia reinante no final dos anos 60, indo exatamente na direção contraria ao clima que levou o rock progressivo às nuvens.

O engraçado, se não fosse trágico, é que um dos culpados pelo fim do New York Dolls foi a mesma pessoal que criou o punk rock. Malcom McLaren. Com o Dolls, McLaren mudou o visual do grupo, que no começo se apresentava com vestidos e depois passou a usar couro. Ele também tentou mudar o som que o grupo fazia, deixando a atitude rock de lado para assumirem um lado mais sujo, ou punk, o que não deu muito certo e a banda implodiu.
 
Já na Inglaterra rola a história que todos já conhecemos, Vivienne Westwood e Malcom McLaren, que havia se mudado para a terra da Rainha, tinham uma loja, a Sex. Lá vários moleques e artistas descolados se reuniam para conhecer as novas criações de Westwood, roupas de couro e assessórios inspirados no sado-masoquismo. Na loja um dos vendedores era Glen Matlock, um baixista à procura de banda. Matlock chamou outros dois freqüentadores da loja, Steve Jones e Paul Cook para montarem uma banda que no começo fazia covers  de Who, passando por Chuck Berry e Lou Reed. Então um moleque com os dentes podres aparece na loja, era John Lydon, ou Johnny Rotten, como ficou mais conhecido. Rotten é chamado para a banda e Malcon McLaren farejando a possibilidade de sucesso resolve empresariar o grupo, que assume o nome de Sex Pistols. Os Pistols com seu som sujo, tosco, começou a tocar em todos os buracos que aceitassem bandas pela Inglaterra e abriram espaço para vários outras que seguiam uma linha parecida, como Clash, o Dammed e várias outras que vieram na esteira e acabaram enveredando por outros caminhos como o U2, Siouxsie, Cure, etc, etc, etc.
 
Mas foram os Pistols que mais encarnaram a palavra punk ao seu dia-a-dia, arrumando confusão com sua gravadora, que foi chamada de anti-cristo no hit EMI, com a Rainha em God Save de Queen, e com as emissoras de TV britânicas, já que o grupo foi banido delas por, em uma entrevista, ter falado um palavrão no ar. As redes de TV britânicas eram, e ainda são, extremamente conservadoras e o programa saiu do ar no mesmo instante. Sid Vicious, que entrou no Pistols no lugar de Matlock, despedido por gostar de Beatles, é outro que encampou o punk como bíblia, mas sua vida com os Pistols foi curta. Em uma das estratégias que Malcom McLaren vivia inventando para que a banda não saísse da mídia, estava a vinda da banda pra o Brasil para gravarem um clipe com Ronald Biggs, o famoso assaltante do trem pagador inglês, mas Johnny Rotten não topou e ficou nos Estados Unidos, com isso o Pistols acabou com apenas um disco gravado. Vicious morreu de overdose logo depois, além de ter sido acusado de ter matado sua namorada Nancy Spugen, ter brigado com Deus e o mundo na Inglaterra e de ter sido preso por violência, contra a própria Nancy.
 
Nos Estados Unidos, já no comecinho dos anos 80, uma nova onda de bandas sob a alcunha de hardcore tomavam de assalto o movimento que já havia se suavizado e passou a se chamar new wave - a new wave de bandas como B52´s, Talkin Heads e outras bandas é considerada como um punk diluído, bem mais palatável para tocar em rádios. O som feito na América era um tanto diferente do feito na Inglaterra, onde as bandas punks também já haviam suavizado as composições, era mais rápido, com vocal mais gritado e tinha como capital a California. Black Flag, Circle Jerks, Redd Kross, Bad Religion, e claro, o Dead Kennedys, com seu discurso extremamente politizado e que influênciou muitas bandas que chegaram depois, surgiram nesta segunda leva do punk na América do Norte. Por lá também temos uma cena não muito comum, uma banda negra que fazia punk-rock, entre 77 e 79, o Bad Brains, que antes mesmo desta geração californiana começar a brincar de música, já fazia seu som em Washington. O Brains era uma banda que tocavam jazz-funk, até descobrirem Sex Pistols e Dammed, aí passaram a tocar cada vez mais rápidos e hoje estão lado a lado com os Ramones como papas do punk americano.
 
E no Brasil? O que rolava? Bom, aqui as coisas sempre rolaram com um certo atraso, e o punk também chegou com força só no começo dos anos 80. Bandas como Cólera, Olho Seco, Virus 27, Ratos de Porão (que depois partiu para o thrash metal) e muitas outras foram surgindo. Lojas, principalmente na Galeria do Rock no centro de São Paulo, foram sendo criadas e a cena existia muito mais em São Paulo do que no resto do país, coisa que só veio a mudar no meio dos anos 80, principalmente no Rio Grande do Sul, Brasília e até na Bahia, com o nascimento do Camisa de Vênus em 82.
 
Mas o foco sempre foi São Paulo, onde havia uma rivalidade muito grande entre as bandas paulistas e as do grande ABC, cidades vizinhas à capital. Tudo isso tendo como aliado a má fama que o punk trazia, o que só atrapalhou o pessoal que curtia e fazia música. As brigas, mesmo não tão corriqueiras, ganhavam um destaque na mídia muito maior do que qualquer um poderia imaginar. A polícia, que vivia ainda sob as asas da ditadura, descia o cacete em qualquer um que pudesse parecer punk e vivia acabando com as festas. Sucesso mesmo nenhuma banda alcançou, tirando o primeiro disco dos Garotos Podres que passou das 50 mil cópias, nenhuma banda punk se deu bem em vendagens. Mas conseguiram respeito, principalmente de gente de fora do Brasil que colocava estas bandas entre suas favoritas. O Cólera por exemplo, foi a primeira banda brazuca a fazer turnê pelo exterior, com mais de 50 shows, tudo isso graças à troca de fitas cassetes que viviam atravessando o Atlântico. Coisa impensável em tempos de internet, onde arquivos musicais estão disponíveis na rede à distância de um toque.
 
Depois surgiu a cena de Brasília com o Aborto Elétrico, mais famosa banda punk do serrado e que originou a Plebe Rude, o Capital Inicial e a Legião Urbana, além de influenciar uma geração. Em Porto Alegre, graças ao bar Ocidente, as bandas começaram a ter mais espaço, vários grupos foram surgindo e o Replicantes acabou sendo o único que venceu a barreira e saiu do sul do país para estourar em outras praças. Em Salvador o Camisa de Vênus mostrava que na Bahia não existe só bunda music e conseguiu um contrato com a Som Livre, gravadora da poderosa Rede Globo, que chegou a cogitar a mudança do nome da banda, coisa que Marcelo Nova e Cia não concordaram e eles lançaram um único disco por lá.
 
Já o termo punk foi usado pela primeira vez para indicar o tipo de som e atitude deste pessoal por um moleque de 18 anos, chamado Legs McNeil, que criou uma revista com outros amigos para falar sobre sexo, drogas e rock and roll, a qual deu o nome de Punk. Como falavam muito destas novas bandas, o nome ficou mais associado à  música do que à revista. Na Inglaterra, para ajudar, punk é sinônimo de sujo, inútil e isso mostrava bem a cara dos jovens que tocavam este tipo de música por lá...

O punk não acabou com o fim dos Pistols ou a morte de Vicious, ao contrário, continuou vivo com os Ramones, e outra penca de bandas que foram surgindo com o passar do tempo. Sub-gêneros foram aparecendo como o Hardcore, OI!, Straight Edge, Anarco Punk, misturas, que na época soariam como uma heresia aconteceram, como a fusão do punk com o metal, e até o Nu Metal, que foi o estilo que inaugurou esta série... Aos poucos iremos falar de todos estes gêneros e sub-gêneros, então não perca nossos próximos capítulos.

Por Valdir Antonelli

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