Punk
Written by Valdir Antonelli Thursday, 25 December 2003 19:10
Muita gente fala que o punk rock foi criado por
jovens que estavam revoltados com os rumos que o rock estava tomando,
já que nos anos 70 o progressivo estava no seu auge, com shows cada vez
mais distantes da realidade daquele cara que estava na platéia - afinal
não era para qualquer um construir canções com mais de 15 minutos de
duração, várias estruturas musicais e solos extremamente técnicos. O
rock naquele tempo tinha virado espetáculo, onde não bastava a música
ser boa, tinha que existir efeitos, roupas brilhantes, iluminação
destacando cada passagem de cada música e ao público restava apenas o
ato de ouvir e ver, não havia realmente uma participação efetiva dos
fãs - nisso realmente o punk rock revolucionou, criando o tal do Do It
Yourself, o Faça Você Mesmo, onde o moleque que ia num show punk saia
de lá e montava a sua própria banda. Tal coisa era impensável para o
progressivo. Mas falar que este foi o motivo para o nascimento do punk
rock é um tanto infantil, afinal continuavam aparecendo bandas que
apostavam em um som mais simples e sem rodeios, principalmente nos
Estados Unidos, mas não podemos negar que o sucesso realmente estava
com o pessoal do progressivo e que hora ou outra isso iria saturar a
molecada que é louca por novidades. E foi este o gancho que o punk
pegou.
Antes mesmo de Yes, Genesis e Cia Ltda. chegarem ao
estrelato, bandas como Stooges e seu tresloucado líder, Iggy Pop, MC5,
com suas letras políticas e New York Dools, com o visual andrógino, já
plantavam as sementes o punk rock - e mesmo antes deles, lá pelos anos
50, com os Trashmen com sua surf music tosca -além, é claro, dos
Ramones, ícones do movimento, assumindo um visual e uma sonoridade que
virou marca registrada do que viria a ser chamado punk, mas ainda sem
se tocarem que eram os pais do estilo. Até mesmo Lou Reed e seu Velvet
Underground, lá por 65, já trazia uma das sementes do movimento, com
seu som mais cru e direto, fugindo da psicodelia reinante no final dos
anos 60, indo exatamente na direção contraria ao clima que levou o rock
progressivo às nuvens.
O
engraçado, se não fosse trágico, é que um dos culpados pelo fim do New
York Dolls foi a mesma pessoal que criou o punk rock. Malcom McLaren.
Com o Dolls, McLaren mudou o visual do grupo, que no começo se
apresentava com vestidos e depois passou a usar couro. Ele também
tentou mudar o som que o grupo fazia, deixando a atitude rock de lado
para assumirem um lado mais sujo, ou punk, o que não deu muito certo e
a banda implodiu.
Já na Inglaterra rola a história que todos já
conhecemos, Vivienne Westwood e Malcom McLaren, que havia se mudado
para a terra da Rainha, tinham uma loja, a Sex. Lá vários moleques e
artistas descolados se reuniam para conhecer as novas criações de
Westwood, roupas de couro e assessórios inspirados no sado-masoquismo.
Na loja um dos vendedores era Glen Matlock, um baixista à procura de
banda. Matlock chamou outros dois freqüentadores da loja, Steve Jones e
Paul Cook para montarem uma banda que no começo fazia covers de Who,
passando por Chuck Berry e Lou Reed. Então um moleque com os dentes
podres aparece na loja, era John Lydon, ou Johnny Rotten, como ficou
mais conhecido. Rotten é chamado para a banda e Malcon McLaren
farejando a possibilidade de sucesso resolve empresariar o grupo, que
assume o nome de Sex Pistols. Os Pistols com seu som sujo, tosco,
começou a tocar em todos os buracos que aceitassem bandas pela
Inglaterra e abriram espaço para vários outras que seguiam uma linha
parecida, como Clash, o Dammed e várias outras que vieram na esteira e
acabaram enveredando por outros caminhos como o U2, Siouxsie, Cure,
etc, etc, etc.
Mas foram os Pistols que mais encarnaram a
palavra punk ao seu dia-a-dia, arrumando confusão com sua gravadora,
que foi chamada de anti-cristo no hit EMI, com a Rainha em God Save de
Queen, e com as emissoras de TV britânicas, já que o grupo foi banido
delas por, em uma entrevista, ter falado um palavrão no ar. As redes de
TV britânicas eram, e ainda são, extremamente conservadoras e o
programa saiu do ar no mesmo instante. Sid Vicious, que entrou no
Pistols no lugar de Matlock, despedido por gostar de Beatles, é outro
que encampou o punk como bíblia, mas sua vida com os Pistols foi curta.
Em uma das estratégias que Malcom McLaren vivia inventando para que a
banda não saísse da mídia, estava a vinda da banda pra o Brasil para
gravarem um clipe com Ronald Biggs, o famoso assaltante do trem pagador
inglês, mas Johnny Rotten não topou e ficou nos Estados Unidos, com
isso o Pistols acabou com apenas um disco gravado. Vicious morreu de
overdose logo depois, além de ter sido acusado de ter matado sua
namorada Nancy Spugen, ter brigado com Deus e o mundo na Inglaterra e
de ter sido preso por violência, contra a própria Nancy.
Nos
Estados Unidos, já no comecinho dos anos 80, uma nova onda de bandas
sob a alcunha de hardcore tomavam de assalto o movimento que já havia
se suavizado e passou a se chamar new wave - a new wave de bandas como
B52´s, Talkin Heads e outras bandas é considerada como um punk diluído,
bem mais palatável para tocar em rádios. O som feito na América era um
tanto diferente do feito na Inglaterra, onde as bandas punks também já
haviam suavizado as composições, era mais rápido, com vocal mais
gritado e tinha como capital a California. Black Flag, Circle Jerks,
Redd Kross, Bad Religion, e claro, o Dead Kennedys, com seu discurso
extremamente politizado e que influênciou muitas bandas que chegaram
depois, surgiram nesta segunda leva do punk na América do Norte. Por lá
também temos uma cena não muito comum, uma banda negra que fazia
punk-rock, entre 77 e 79, o Bad Brains, que antes mesmo desta geração
californiana começar a brincar de música, já fazia seu som em
Washington. O Brains era uma banda que tocavam jazz-funk, até
descobrirem Sex Pistols e Dammed, aí passaram a tocar cada vez mais
rápidos e hoje estão lado a lado com os Ramones como papas do punk
americano.
E no Brasil? O que rolava? Bom, aqui as coisas
sempre rolaram com um certo atraso, e o punk também chegou com força só
no começo dos anos 80. Bandas como Cólera, Olho Seco, Virus 27, Ratos
de Porão (que depois partiu para o thrash metal) e muitas outras foram
surgindo. Lojas, principalmente na Galeria do Rock no centro de São
Paulo, foram sendo criadas e a cena existia muito mais em São Paulo do
que no resto do país, coisa que só veio a mudar no meio dos anos 80,
principalmente no Rio Grande do Sul, Brasília e até na Bahia, com o
nascimento do Camisa de Vênus em 82.
Mas o foco sempre foi São
Paulo, onde havia uma rivalidade muito grande entre as bandas paulistas
e as do grande ABC, cidades vizinhas à capital. Tudo isso tendo como
aliado a má fama que o punk trazia, o que só atrapalhou o pessoal que
curtia e fazia música. As brigas, mesmo não tão corriqueiras, ganhavam
um destaque na mídia muito maior do que qualquer um poderia imaginar. A
polícia, que vivia ainda sob as asas da ditadura, descia o cacete em
qualquer um que pudesse parecer punk e vivia acabando com as festas.
Sucesso mesmo nenhuma banda alcançou, tirando o primeiro disco dos
Garotos Podres que passou das 50 mil cópias, nenhuma banda punk se deu
bem em vendagens. Mas conseguiram respeito, principalmente de gente de
fora do Brasil que colocava estas bandas entre suas favoritas. O Cólera
por exemplo, foi a primeira banda brazuca a fazer turnê pelo exterior,
com mais de 50 shows, tudo isso graças à troca de fitas cassetes que
viviam atravessando o Atlântico. Coisa impensável em tempos de
internet, onde arquivos musicais estão disponíveis na rede à distância
de um toque.
Depois surgiu a cena de Brasília com o Aborto
Elétrico, mais famosa banda punk do serrado e que originou a Plebe
Rude, o Capital Inicial e a Legião Urbana, além de influenciar uma
geração. Em Porto Alegre, graças ao bar Ocidente, as bandas começaram a
ter mais espaço, vários grupos foram surgindo e o Replicantes acabou
sendo o único que venceu a barreira e saiu do sul do país para estourar
em outras praças. Em Salvador o Camisa de Vênus mostrava que na Bahia
não existe só bunda music e conseguiu um contrato com a Som Livre,
gravadora da poderosa Rede Globo, que chegou a cogitar a mudança do
nome da banda, coisa que Marcelo Nova e Cia não concordaram e eles
lançaram um único disco por lá.
Já o termo punk foi usado pela
primeira vez para indicar o tipo de som e atitude deste pessoal por um
moleque de 18 anos, chamado Legs McNeil, que criou uma revista com
outros amigos para falar sobre sexo, drogas e rock and roll, a qual deu
o nome de Punk. Como falavam muito destas novas bandas, o nome ficou
mais associado à música do que à revista. Na Inglaterra, para ajudar,
punk é sinônimo de sujo, inútil e isso mostrava bem a cara dos jovens
que tocavam este tipo de música por lá...
O punk não acabou com o fim dos Pistols ou a morte de Vicious, ao contrário, continuou vivo com os Ramones, e outra penca de bandas que foram surgindo com o passar do tempo. Sub-gêneros foram aparecendo como o Hardcore, OI!, Straight Edge, Anarco Punk, misturas, que na época soariam como uma heresia aconteceram, como a fusão do punk com o metal, e até o Nu Metal, que foi o estilo que inaugurou esta série... Aos poucos iremos falar de todos estes gêneros e sub-gêneros, então não perca nossos próximos capítulos.
Por Valdir Antonelli

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