Gótico

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divulgaçãoLetras recheadas de melancolia e pessimismo, junto com timbres de teclados soturnos era a característica marcante do jeito alemão pós-punk. Este estilo tornou-se quase uma convenção, a que se atribuiu o rótulo gótico por uma aproximação latente à arquitetura gótica, com anjos e demônios, de
referência à adeidade (falta de deus, fé) dos elementos, fruto direto do termo medieval. O encontro com a literatura, em especial do movimento Romântico, também é uma característica marcante, além da moda, que é um elemento crucial do estilo, que desde seu início foi e é ligado mais à estética do que propriamente a uma filosofia. Melancolia, morbidez e seus frutos diretos não é exclusividade gótica, ainda mais quando se leva em consideração a música propriamente dita.

Voltando um pouco mais no tempo, vemos que esse som mais down, já era algo razoavelmente presente na música alemã. Desde a década de 60, grupos já se mostravam mais depressivos que seus congêneres ingleses, que viviam a ascensão dos Beatles e de um rock, digamos, mais alegre. Com a chegada dos new romantics, esse som mais depressivo começou a ser absorvido pelos jovens ingleses, os verdadeiros responsáveis pela ´explosão´ do gênero. Alguns grupos, sabidamente pós-punks, Joy Division por exemplo, foram lançados no caldeirão gótico. O Joy Division, inclusive, é considerado o "pai" do estilo. Era o final da década de 70 e logo no limiar dos anos oitenta, o gênero iria viver seu apogeu. O estouro do estilo rolou no meio dos anos 80, quando grupos como Sisters of Mercy, Southern Death Cult (que depois viria a ser o Cult), Bauhaus, Cure (apesar de soar bem punk no começo da carreira), Siouxsie, Mission, Clan of  Xymox, Christian Death e Fields of the Nephilim, entre muitos outros. Enquanto Cure e Siouxie, por exemplo, apostavam mais na mistura com o pop, Christian Death e Fields flertavam com o metal para assegurar sua sonoridade.

Além deles, outra parte destas bandas, ainda nos 80, já flertava com outros tipos de som, como a música eletrônica, medieval e a world music, caso específico dos australianos do Dead Can Dance. Este excesso de mistura decretou o fim do gótico no final da década, mas foi o caldeirão efervescente que ez surgir, na década seguinte, diversos filhotes, que receberam espertamente rótulos bacanas da ndústria fonográfica, como coldwave, darkwave, ethereal, goth-metal e por aí vai. Esta incursão mais a fundo no estilo, mesclando vocais líricos, letras carregadas de misticismo e guitarras cada vez mais pesadas dão frutos até nas rádios rock brasileiras, vide o caso dos norte-americanos do Evanescence, mutação direta de bandas como o Nightwish, que é, talvez, uma das principais bandas que explodiram na década de 90. Até mesmo o caso de Marilyn Manson, o mais pop e polêmico caso do rock gótico, que sabe usar a mídia a seu favor como ninguém antes havia tentando.

Durante boa parte dos anos 80, os góticos, até então chamados de darks, ainda mantinham uma certa ligação com o movimento punk, mas aos poucos os dois grupos foram se distanciando e hoje é muito difícil perceber algum tipo de ligação. De uma forma preconceituosa, os punks são tachados de burros e cabeça duras. Já os góticos passaram a se interessar por artes plásticas, literatura e cinema, o que deu ao movimento uma aura intelectual, mesmo que muitos dos que se chamavam góticos, apenas, pateticamente, arranhassem os conhecimentos nestas áreas. Mesmo assim é possível afirmar que a juventude gótica tem, de fato, mais interesse por áreas onde o resto dos jovens só entra se for obrigado.

Outra questão ´polêmica´ é a relação entre darks e góticos. Para muita gente o termo dark era algo criado pelos brasileiros, e que ganhou o país depois do Reginaldo, personagem de uma novela global, transformou os darks em motivo de piada nacional. Para outros o nome dark realmente existiu, como
vimos, vindo das bandas alemãs e chegando ao resto da Europa. Independentes disso, alguns elementos são intrínsecos aos seguidores do estilo: o gosto pela melancolia, romantismo, depressão e uma certa rebeldia sonora.

Assim como vários outros estilos musicais, a década de 90 foi prolixa para o gótico e a fragmentação musical foi apenas uma conseqüência direta da maneira que a indústria musical concebeu para facilitar a vendagem e atingir o público certo, com menos trabalho. É aí que surgem várias confusões. Bandas como o Depeche Mode, muito ligada ao tecno-pop, acaba sendo ensacada no mesmo balaio gótico, ainda que em algumas canções, os elementos estruturais ligados à melancolia estejam presentes. Mas, musicalmente, é um erro crasso fazer tal afirmação.

Mas vamos às vertentes da música gótica:

Rock Gótico: Poderia ser chamado de gótico clássico, já que é representado pela primeira geração de bandas ligadas ao estilo. Sisters of Mercy, Mission, Ghost Dance. Em prática, acabou-se no final da década de 80, sendo ressuscitado, vez ou outra, por alguma banda clone.

Pop Gótico: Polêmico, mas esta denominação existe em vários sites, brasileiros e estrangeiros, que tratam do assunto. São bandas que mesclam sons mais pra baixo com momentos extremamente alegres. O Cure é citado como uma das bandas pop.

Gótico Eletrônico: No meu tempo era chamado de rock industrial, e não tinha ligação alguma com o gótico. Algo como Ministry, Nine Inch Nails, Front Line Assembly, Laibach e até o Front 242, seguindo o raciocínio dos góticos, entrariam no balaio.

Ethereal / DarkWave: Outro subgênero que, na falta de algum rótulo melhor, acabou sendo englobado pelos góticos. Bandas como Cocteau Twins, Dead Can Dance e até grupos ligados a new age, podem ser encaixados aqui. São bandas com arranjos mais leves, com letras surreais e vocais etéreos, às vezes flertando com a música clássica.

Metal Gótico: Este é o subgênero que mais cresce ultimamente, com as rádios colocando algumas bandas em suas programações. Como o próprio nome diz, mescla as guitarras pesadas do metal com arranjos soturnos, muitas vezes misturando vocais angelicais com outros guturais. Bandas como Tristania e Lacrimosa são alguns nomes que podemos destacar. Aqui também poderiam entrar alguns grupos, conhecidos como Doom Metal, que também brincam com a temática gótica e guitarras pesadas, mas, no nosso entender, são mais ligados ao thrash metal.

E no Brasil? Pra variar, assim como em vários outros estilos, os brasileiros fazem uma salada gigantesca ao incluir grupos como Zero, Uns e Outros e Violeta de Outono como bandas góticas. Os dois primeiros fazem pop/rock e o último trabalha com rock progressivo. De fato, algumas boas bandas se destacam no cenário alternativo, como a finada Der Kalte Stern, entretanto nenhuma delas conseguiu extrapolar o gueto da tribo urbana, sendo restritas apenas às pessoas que acompanham mais de perto. Na ânsia de criarem uma cena gótica brasileira, algumas pessoas tentam ligar a MPB ao estilo, na verdade, tentando encontrar elementos góticos em músicas que em nada podem ser ligadas à cena. Não é por tratar de assuntos depressivos ou soturnos, que determinado artista possa ser enquadrado no estilo. O gótico musical brasileiro ainda carece, e muito, de uma referência nacional, tanto em letras quanto em sonoridade. Porque se fosse só melancolia, então estaríamos repletos de exemplos soltos por aí, que, de fato, nunca poderiam se incluídos na estética gótica.

Por Valdir Antonelli e Danilo Corci

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