Rap & Hip-Hop

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divulgaçãoO discurso de grupos de rap, inseridos completamente na cultura hip hop, como o dos paulistanos Racionais MC´s, aponta para um quadro de violência horizontal. Não somente violência entre classes, mas violência dentro das próprias classes, pobres ou ricas, a qual acabou criando uma arquitetura de muros, guardas, portões e cães ferozes, que, por sua vez, formou uma cidade e colonizou as mentes dos seus cidadãos.

A São Paulo dos Racionais é uma cidade-bunker, cidade-praça-de-guerra, separada por guaritas, cercas elétricas, gritantes abismos sociais e por muita, muita violência.

A cultura hip hop foi um dos caminhos que os jovens das periferias de grandes cidades como São Paulo encontraram para, de alguma forma, enfrentar essa situação monstro. Ela é a fórmula utilizada pelos jovens pobres e negros dessas metrópoles para registrar a opressão, a violência, o preconceito e a miséria em que se vive.

Como todo movimento contrário ao status quo, o hip hop já foi clandestino e marginal. Atualmente, no Brasil, ele é um movimento totalmente inserido na indústria de entretenimento, apesar de algumas bandas como os Racionais MCs permanecerem próximas às suas primeiras idéias. Hoje, o hip hop engloba música (o rap — Rythm and Poetry — e a discotecagem), dança (break e street dance) e artes plásticas (o grafite).

Rap

O rap nasceu da música funk dos EUA, que, por sua vez, é fruto da música soul, a qual surgiu de uma união do rhythm and blues, uma música profana, com o gospel, uma música protestante negra. Nos anos 70, nos EUA, o funk havia passado por um intenso processo de comercialização, o qual desembocou na febre das discotecas e dos grandes bailes, de onde surgiu o rap.

Este estilo musical nasceu mais especificamente no bairro nova-iorquino do Bronx, em 1971, quando a jovem Cindy Campbell, que precisava de dinheiro para voltar a estudar, pediu ao seu irmão Clive que organizasse uma festa.

Quando morava em sua terra natal, Kingston, na Jamaica, Clive costumava freqüentar os bailes locais. Ele ficava encantado com os enormes equipamentos de som dos DJs, e como eles ´conversavam´ ritmicamente, numa batida repetitiva, no início de cada música.

A festa dos irmãos Campbell foi um sucesso: a entrada custava 25 centavos de dólar para as moças e 50 para os rapazes. O baile só parou às 4 da madrugada. Clive então passou a organizar outras festas e, em 1973, ele deu uma grande festa nas ruas do Bronx. Desde então, Clive passou a ser conhecido como Kool Herc, apelido que usava para pichar os trens do metrô.

Nessa época, Clive tinha 18 anos e era o primeiro DJ que falava num ritmo entrecortado. Com dois toca-discos funcionando ao mesmo tempo e duas cópias de cada disco, podia tocar o mesmo trecho sem parar. Ele tinha dançarinos que executavam seu número ao som do break, e daí surgiu o nome ´breakdancers´ ou, como Kool Herc os chamava, b-boys.

Porém, foi o jovem Joseph Saddler quem realmente criou o rap que existe hoje. Para Sandler, a maioria das canções tinha apenas dez segundos que valiam a pena, e, se esses trechos fossem agrupados e repetidos se poderia estendê-los para criar noites inteiras de baile. Metido em seu quarto no Bronx, ele criou uma forma de ouvir um toca-discos com fones de ouvido, enquanto o outro aparelho animava a festa. Com esse macete, um DJ poderia tocar ininterruptamente os mesmos dois discos, porém fazendo com que os trechos se misturassem, criando assim novas combinações.

Foi assim que Sandler se tornou o DJ Grandmaster Flash, que passou a tocar e comandar grandes bailes. Foi ele quem inventou o scratch — técnica que produz sons ao girar manualmente e em sentido contrário um LP sob a agulha de um aparelho de som. Também foi ele quem criou o back spin, uma técnica que permite ao DJ extrair do disco uma frase rítmica, um groove (parte da música que se repete e determina o ritmo da canção), para repeti-lo várias vezes, modificando assim o andamento normal da música utilizada (essa repetição do groove é conhecida como looping e ocorre ao longo de toda música). O back spin é, portanto, uma espécie de bricolagem sonora que possibilita ao DJ a criação de músicas apenas com os pedaços de outras músicas.

Estas técnicas somadas ao advento do sampler — aparelho que copia sons pelo computador (os grooves que o DJ usa na música) — e do mixer — aparelho que o DJ usa para ´colar´ uma música na outra — possibilitaram fazer com que o DJ fosse capaz de criar infinitas músicas compostas por meio de colagens de trechos de diferentes canções (normalmente consagradas).

Quando esta técnica começou a ganhar espaço, surgiu então a figura dos MCs — abreviatura de ´master of ceremony´ (mestre-de-cerimônia), que cantavam e animavam os bailes ao som das músicas criadas pelos DJs.

Foram os MCs que inventaram o rap — abreviatura de ´rhythm and poetry´ (ritmo e poesia). Este tipo de música, em seu início, era basicamente feito com um rapper que se apresentava cantando sobre uma base instrumental criada pelo DJ. As letras das músicas dos rappers são sempre faladas ou declamadas.

Com o passar do tempo e com a disseminação do rap entre os guetos norte-americanos, surgiu então a cultura do hip hop, que engloba música, arte e dança.

Hip Hop

Numa tradução literal hip hop significa movimentar os quadris (to hip, em inglês) e saltar (to hop). Atualmente, ele é um movimento cultural, social e político que reúne, basicamente, três elementos: a música rap, artes plásticas (grafite) e dança (break e street dance).

No Brasil, esta cena não ficou apenas no protesto contra as condições de vida na periferia. Grande parte das bandas também trabalha para melhorar a vida em suas comunidades, porém, nem todo grupo de rap é do movimento hip hop. A inclusão depende justamente do viés social do grupo.

Existe até um conceito para essa participação na sociedade: posse, que designa a associação de bandas de rap e outras pessoas ligadas ao movimento. As posses foram criadas nos Estados Unidos para que os rappers, breakers e grafiteiros trocassem informações.

Os integrantes das posses muita vez atuam em ONGs. Nesse sentido, o rap conseguiu fazer com que jovens da periferia ganhassem poder político.

Como disse o poeta alemão Rainer Maria Rilke: ´uma obra de arte é boa quando surge da necessidade´. O rap é música da necessidade, que atrai jovens pobres da periferia em busca de identidade. O estado de ser invisível é uma metáfora constante da condição do jovem negro da periferia na sociedade brasileira. A cultura hip-hop, no Brasil, deu voz à invisibilidade.

Foi com ela que jovens como os rappers do Racionais MCs passaram de consumidores de uma música pop norte-americana para produtores de uma música pop brasileira, que, apesar de estar dentro do mercado fonográfico do país, funciona como estorvo, um espinho, um incômodo.

O rap é um exemplo do impacto do capitalismo tardio multinacional na cultura brasileira. Foi este sistema que trouxe o rap norte-americano para o Brasil, porém, paradoxalmente, é contra este sistema que muitas posses ligadas ao rap nacional lutam. Talvez daí surja o paradoxal discurso dos Racionais, que ao mesmo tempo quer participar da sociedade de consumo e do capitalismo tardio, os quais esse mesmo discurso muita vez reconhece como forças repressoras e injustas.

O rap dos Racionais demonstra, por sua vez, que a homogeneização da cultura dita ´jovem´ é impossível porque as apropriações que são feitas dessa cultura nem sempre caminham junto com aquilo que o modelo do capitalismo tardio prega. O rap dos Racionais ocorre temporalmente junto e espacialmente dentro de uma inquestionável globalização do universo cultural da população mais jovem das periferias, porém, esta globalizacão não está isenta de aspectos locais, os quais fazem, muita vez, que o ´local´ predomine sobre o ´global´.

A cultura do hip hop é, portanto, uma forma de representação dessa realidade fraturada, uma maneira de compreender essa separação e representá-la através de um discurso muita vez tão agressivo quanto a própria separação.

Os discursos dos rappers e do hip hop mostram uma cidade recheada por construções que separam os diferentes, que ´destroem´ o espaço público e aumentam ainda mais essas diferenças, pois o mesmo muro que protege o rico é também a barreira que ressalta a separação e acirra os conflitos. A São Paulo dos rappers é uma cidade onde a segregação social aparece cristalizada na figura dos condomínios fechados, shopping centers, casas que são enclaves fortificados, centros de ´clausura´ que relegaram ao segundo plano o espaço público.

Um exemplo desse discurso, muita vez regressivo e violento, está, em São Paulo, na figura dos pichadores. Para estes cidadãos, a pichação é a forma encontrada para combater uma violência ainda maior: a da invisibilidade social que os muros e a pobreza inculcam no jovem superexplorado da periferia. O mesmo ocorre com o discurso agressivo dos rappers paulistanos. Nesse novo discurso e nessa forma de comportamento, tudo o que for genuinamente produzido pela periferia vem carregado de enfrentamento.

Sobreviventes, para estes jovens da periferia, o enfrentamento é seu único discurso. Eles combatem a cidade opressiva e murada com uma postura saída deste mesmo ambiente que a sociedade lhes empurra goela abaixo. São produtores de discursos gerados num ambiente opressor, mas contrários a ele. Contrários à fortificação da cidade e às apropriações privadas do espaço público feita por aqueles que fecham fecham ruas, colocam guaritas na calçada e impedem uma das principais funções do espaço público moderno: permitir a liberdade de circulação.

Nesse sentido, sua similaridade com o futurismo é assustadora. Suas músicas, assim como as obras futuristas, são mais conhecidas por seu manifesto do que por seu valor artístico. Da mesma forma que o Manifesto Futurista é um elogio à máquina e uma demonstração de ódio ao passado e amor ao mundo moderno, as letras das músicas dos rappers também são uma busca de conciliação desesperada com a modernidade, com a sociedade de consumo e com todas as máquinas que ela pode oferecer.

Da mesma forma que o futurista queria produzir no observador a vertigem, o discurso dos rappers, recheado da narração de experiências, individuais ou coletivas, onde a violência é generalizada, também procura a vertigem daquele que o ouve, mas a vertigem pelo vigoroso e hostil anúncio ultra-realista da violência.



Fontes:
Folha de S. Paulo
Dayrell, Juarez; A Música Entra em Cena – O rap e o funk na socialização da juventude; Editora UFMG; 2005

Por Renato Roschel (www.speculum.com.br)

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