Pato Fu - novembro/2002
Written by Valdir Antonelli Friday, 01 November 2002 00:04
DropMusic: Um pouco de história, por que no começo da banda vocês optaram por usar uma bateria eletrônica?
Fernanda:
A idéia de se formar o Pato Fu foi do John. Ele já tinha passado 10
anos numa banda nos moldes convencionais (baixo, guitarra e bateria)
que era o Sexo Explícito. Quando ele deixou a banda antiga, estava
morando em São Paulo, decidiu aprender a usar sequencers , samplers,
módulos midi. Facilitou a nossa vida no início, pois tínhamos espaço
mínimo pra ensaiar, barateava a produção de show, além de conferir uma
sonoridade totalmente diferente pra uma banda de rock.
DropMusic: O primeiro disco de vocês saiu por uma gravadora independente, esse disco foi relançado?
Fernanda:
´Rotomusic de Liquidificapum´ nunca saiu de catálogo, desde 92. Ele tem
sido distribuído por diferentes gravadoras como Velas, Eldorado etc...
Quando ele saiu originalmente era em vinil ainda!
DropMusic:
Vocês sempre gravam pelo menos uma música em cada disco que mais parece
rock experimental, no Ruído Rosa por exemplo esta seria Day After Day,
isso é proposital?
Fernanda: Não é de propósito, quando
fechamos o repertório de um disco, sempre tem uma faixa mais estranha.
Mesmo assim, elas não são chatas ou fechadas numa idéia que só a banda
iria gostar. Quero dizer que fazer música descabeçada ou experimental
pode ser bem mais fácil do que escrever uma boa canção pop. Mas quando
uma música meio sem formato aparece em nosso disco é fruto da
tecnologia ou de influências diversas e atemporais, e de forma alguma
vamos excluí-la do repertório se tiver qualidade, dentro de nossos
próprios critérios, é claro.
DropMusic:
Outra coisa que sempre aparece nos discos são regravações, vocês já
fizeram isso com Legião (Eu Sei), agora com Ira (Tolices), e também com
a Graforréia Xilarmonica (Eu), como vocês escolhem estas músicas, vocês
já tocavam ao vivo?
Fernanda: Raramente mostramos em turnê
músicas que não estejam nos discos. Escolhemos as canções por afinidade
com a música apenas e muitas vezes ocorre também de gostarmos muito dos
artistas que as compuseram.
DropMusic:
Nos primeiros trabalhos a grupo era considerado uma banda engraçadinha,
que fazia músicas engraçadinhas, você concorda com isso?
Fernanda:
Somos uma banda bem-humorada, mas não fazemos músicas-piada. Só que o
humor chama a atenção demais e uma canção como ´Pinga´, que tem um
clipe bacana, pode passar uma imagem restrita da banda, como passou. Ou
seja, não concordo com isso. As músicas que mais tocaram do Pato Fu são
´Sobre O Tempo´, ´Canção Pra Você Viver Mais´, ´Antes Que Seja
Tarde´... e não são nem um pouco engraçadas.
DropMusic:
O Pato Fu é uma das bandas que mais contato mantém com os fãs, creio
que são poucas as bandas que mantém um canal assim tão aberto. Até que
ponto este contato ajuda à banda?
Fernanda: Ajuda num plano
bem restrito mas que pode durar muito tempo. Esse é o tipo de
característica de um artista que não o faz vender mais discos, nem
fazer mais shows, mas traz a boa sensação de que somos felizes com
nossa carreira em todos os aspectos. Muita gente não tem paciência pra
lidar com quem gosta da sua própria música, mas isso não faz o menor
sentido pra mim. É importante dar retorno a quem vai aos shows, escreve
sobre a banda, ouve os discos em casa. Eu sou fã de outras pessoas e
fico extremamente feliz quando sou bem tratada, me dão uma atenção
mínima.
DropMusic: Das questões que vocês recebem dos fãs, o que eles mais perguntam? Fazem perguntas, digamos, meio estranhas?
Fernanda:
Há muitas perguntas sobre equipamento e como começar uma carreira. Não
nos fazem perguntas muito estranhas não. Muitos querem saber o que
estamos ouvindo atualmente e se conhecemos outras bandas de que gostam
também.
DropMusic:
Vocês foram considerados uma das 10 melhores bandas do mundo pela
Revista Times, como foi isso, como eles conheceram o trabalho da banda?
Fernanda:
Vários jornalistas que escrevem para Time ouviram bandas de quase todos
os países do mundo e votaram em suas preferidas. Sei que receberam
todos os nossos discos, assim como de muitas outras bandas brasileiras
de nossa geração. Conseguimos ser notados lá fora, junto a bandas
internacionalmente cultuadas, cantando em Português mesmo. Ficamos
muito felizes e concluímos que ter participado do Rock In Rio, nos
deixou ainda mais visíveis, pois gerou matérias pra imprensa do mundo
todo.
DropMusic:
Numa das perguntas feitas pelos fãs, eu li uma sobre vocês fazerem
sucesso no Chile mesmo sem divulgação para paises de língua espanhola.
vocês nunca pensaram em gravar algo em espanhol, como vários grupos já
fizeram, e tentar se lançar neste mercado? Ou não acham isso
necessário, afinal estavam tocando em português mesmo.
Fernanda:
Já gravamos uma música em espanhol: ´Porque Te Vas´, em 96. Acredito
que esse contato com a América Latina vá ficar cada vez mais estreito.
Nosso primeiro DVD, que sai no Brasil em agosto, deve ser lançado em
vários países até o fim do ano. Sem dúvida facilitaria mais as coisas
um disco todo em espanhol... pra isso teríamos que abandonar a carreira
por aqui, durante algum tempo e não podemos fazer isso agora.
DropMusic:
O que mudou desde o lançamento de Rotomusic de Liquidificapum até o
Ruído Rosa. Em entrevista que fiz com o Kiko Zambianchi ele disse que
hoje ele tem mais consciência sobre o que faz, isso também ocorreu com
o Pato Fu?
Fernanda: Quando eu comecei no Pato Fu, tinha 21
anos. Vou fazer 31 e acho que aprendemos muito nesses 10 anos. Temos 6
discos inéditos lançados, uma coleção de clipes bacanas, um bocado de
gente que gosta do que fazemos. Temos um estúdio em casa o que nos dá
autonomia artística grande. Esperamos cada vez mais ter controle sobre
a nossa carreira e isso tem acontecido, ainda bem.
DropMusic:
Vocês tem uma seção onde colocam alguns MP3 para download, mas poucos
são de músicas da banda, o que você acha desta polemica que virou o MP3?
Fernanda:
Colocamos mp3 raros e exclusivos em nosso site desde 98! Eu baixo muita
coisa via internet, mas ainda compro muitos discos. Acho que as novas
tecnologias vem para o bem. A gente tem que rediscutir vários termos de
acordo entre artistas e indústria, mas como o nome mesmo diz, são
contratos que as partes assinam. Se a música for grátis pro usuário
ótimo, mas alguém vai estar pagando essa conta, né? Por enquanto são as
gravadoras e por isso estão correndo atrás de formas pra regularizar os
downloads. A gente tem um contrato com a BMG, por isso não podemos
colocar o disco todo em mp3 porque eles esperam vendê-lo pra pagar as
contas de produção, nossos direitos e lucrar... Se um site pagar a
produção de um disco e os direitos autorais etc, mais do que justo
disponibilizá-lo gratuitamente aos clientes, sob forma de marketing
institucional. Pode ser um caminho, mas não é isso que acontece ainda.
Como disse, se tem alguém pagando as contas e não considera justa a
relação, é porque ainda tem que ser melhorada a forma como o processo
ocorre.
DropMusic:
Vocês mantém no site uma loja para vender produtos com a marca da banda
e por preços mais baixos do que encontramos nas lojas, isso dá certo? O
que mais tem saída?
Fernanda: Não vivemos dessa venda no
site, mas é importante pra gente, que as pessoas encontrem nossos
discos e possam ter uma camiseta da banda, por exemplo. Sempre
levávamos uma barraquinha pra vender coisas com assinatura do Pato Fu
nos shows, mas acontecia do pessoal ir desprevenido. A loja na internet
é algo com que as pessoas podem contar no dia a dia. As bandas
estrangeiras de que mais gosto tem venda de produtos via internet...
DropMusic:
Eu li a crítica feita pelo editor da Super Interessante e numa parte
ele fala sobre mostrar o dedo médio para a critica, vocês realmente
fazem isso?
Fernanda: Não! Fazemos nossos discos
independente de qualquer coisa a não ser nosso gosto pessoal mesmo. É o
que sabemos fazer. Eu leio muito a imprensa especializada, presto
atenção no que dizem sobre nós, mas não posso trabalhar em função dela.
Posso concordar ou não com alguns textos,pois não acertamos sempre
mesmo. Gosto de ler críticas que são feitas sem pressa, que dá pra
saber se o jornalista ouviu o disco mais de uma vez, que não é uma
opinião pré-conceituosa (por gostar ou por detestar a banda). Acho
importante o trabalho de qualquer crítica, no mínimo é uma percepção de
alguém de fora, sobre o que estamos fazendo.
DropMusic:
Em entrevista que você deu para esta mesma revista e também por partes
desta Carta Aberta ao Pato Fu, vi uma preocupação excessiva com você
ser ou não um símbolo sexual, o que você acha dessa ´polemica´?
Fernanda:
Acho apenas que não tenho vocação alguma pra esse tipo de rótulo. Gosto
de saber que algumas pessoas conhecem nossas canções e não a nossa
cara. É sinal de que a música ainda é o mais importante.
DropMusic:
Vocês estão para gravar um disco ao vivo com a grife da MTV, isso
ultimamente virou regra, ou é ao vivo ou um acústico, vocês não temem
serem chamados de oportunistas por estarem ´usando´ a MTV?
Fernanda:
Acho bacana você ter colocado entre aspas o ´usando´. Quando a MTV faz
uma parceria dessa com uma banda ou artista, é porque acredita no
trabalho que vem sendo desenvolvido por ele. O que temos é uma
parceria. Tivemos a oportunidade de fazer com eles nosso primeiro disco
ao vivo e nosso primeiro DVD. Cuidamos tanto pra que esses dois
produtos tivessem o mesmo nível de conteúdo e produção de nossos discos
de estúdio e clipes, que de forma alguma estamos com a sensação de
termos sido oportunistas. Espero que as pessoas tenham a oportunidade
de ver o especial no dia 26 de julho, às 22:30h!
DropMusic: Além do disco ao vivo, o que vocês pretendem fazer no resto de 2002?
Fernanda: Se tudo der certo, muitos shows!




