Wednesday Jul 23

Nação Zumbi - dezembro/2005

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divulgaçãoA consagração veio com os discos Da Lama Ao Caos (93) e Afrociberdelia (95) que geraram hits como ´A Cidade´, ´Da Lama Ao Caos´, ´Manguetown´ e ´Maracatu Atômico´ de Jorge Mautner. Mas no carnaval de 1997 um acidente de carro levou o carismático e talentoso vocalista. Aí veio a pergunta: qual será o destino da Nação Zumbi?

Após o choque da perda do amigo, os integrantes juntaram os cacos e resolveram continuar na luta. O percussionista Jorge Du Peixe assumiria os vocais e a banda manteria a mesma formação com Lúcio Maia nas guitarras, Dengue no baixo, Pupilo na bateria, Toca Ogan, Marcos Matias, Gilmar Bolla 8 e Da Lua na percussão e alfaias. O primeiro disco da Nação Zumbi sem Chico Science, intitulado Rádio S.Amb.A. (2000), se mostrou mais complexo que os anteriores e passou meio que despercebido. O destaque dele é a canção ´Quando A Maré Encher´. Porém com Nação Zumbi (2002) a banda se auto-afirmou demonstrando que tinha talento sim e que seu maracatu pesava mais que uma tonelada. O recém-lançado Futura (2005), o segundo pela gravadora Trama, apenas comprova essa tese. Mais psicodélico e com fortes influências do funk, o álbum finaliza uma trilogia da era pós Chico. Num bate-papo descontraído, o baterista e também produtor musical Pupilo fala sobre o novo CD, sobre a amizade e união entre os integrantes e sobre a cena cultural de Recife.

DropMusic - O novo disco Futura tem um quê mais psicodélico, funkeado, o que difere bastante do CD anterior. Foi intencional essa mudança?
Pupilo -
Mesmo do Da Lama Ao Caos para o Afrociberdelia já foi bem diferente um disco do outro. Eram outras referências que a banda tinha. A gente tenta trazer a cada disco algo novo, nada muito forçado, mas como a gente tem uma galera que ouve muita coisa diferente é natural que determinadas influências aflorem mais em determinado disco. No disco anterior, a gente se utilizou mais das influências do dub. Tem muito delay, os tambores estão mais pra frente, eram essas a referências principais.
Já no Futura, a gente se utilizou mais da psicodelia, no que se refere às texturas, timbres, mas nada a ver com o psicodelismo dos anos 60 e 70. Nada muito ligado ao flower power. Mais a ver com a psicodelia do afro-futurismo. Até é um lance da gente brincar com o lance da psicodelia em preto e branco. Se você reparar, a capa do disco é em preto e branco.

DropMusic - O disco novo contou com a produção do norte-americano Scotty Hard, conhecido por produzir álbuns de hip hop. Mas o disco caminhou para um outro lado. O que você pode falar da produção de Futura?
Pupilo
- A gente já conhecia o trabalho do Scotty Hard por causa da galera do hip hop underground, mais especificamente de uma banda chamada New Kingdom que tinha uma sonoridade muito bacana para aquela época. Ele também fez alguns trabalhos com jazz contemporâneo, fez a mixagem de um disco da Björk. A gente mandou uns discos pra ele, que pirou no som, e no nosso disco anterior só mixou. Aí criou-se uma amizade. O cara foi pra Recife, passou o carnaval com a gente lá, passou a consumir música brasileira, levamos ele pra comprar vinil, não só em Recife, mas em São Paulo e no Rio. É um cara que foi conhecendo a música brasileira e a Nação Zumbi. Um belo dia ele ligou e conversamos a respeito de manter o mesmo formato: a gente produzindo e ele mixando o álbum. Aí ele disse que não, que queria participar, e acabou rolando. Todo esse processo que ele passou com a gente ao longo de três anos acabou refletindo no estúdio. A gente gravou super rápido, por que já captou rápido o som das músicas com meio caminho andado pra mixagem. Teve mais tempo para trabalhar as vozes. Houve uma unidade no trabalho.

DropMusic - Apesar de vocês lançarem um disco por uma gravadora, vocês são considerados por crítica e público uma das bandas independentes mais importantes da música brasileira. A que se deve essa ´independência´?
Pupilo
- Eu entendo essa nossa independência como artística. Eu acho que para qualquer banda, se você tem uma gravadora ou selo que dê suporte a sua música atingir o maior número de pessoas possível, acho fundamental. Por isso a gente está numa gravadora, mas não é à toa que a gente ta na Trama, que é uma gravadora que sempre respeitou a nossa liberdade artística. Acho que vai por aí.
Quem conhece a gente sabe da importância que a gente dá à liberdade artística, de entregar um produto que a gente acredita, que tem o aval da banda, que tá do jeito que a gente pensou. Não é da nossa praia fazer conchavo com a indústria. De uma certa forma cria um respeito no meio artístico, mas também gera uma antipatia. A real é que enquanto a gente puder deitar a cabeça sossegado no travesseiro, vamos continuar a fazer discos assim.

DropMusic - Vocês passaram momentos ruins com a morte de Chico Science e o cancelamento do contrato que vocês tinham com a Sony Music.
Pupilo
- Sem falar na cobrança que existia por parte de Chico da gente se desvencilhar dessa preocupação de agradar A, B ou C. A partir do momento que passamos a olhar pra gente e fazer as coisas sem medo, passamos a dar uma identidade a banda e a cena de Recife cresceu de uma maneira geral.

DropMusic - Já que falamos dele, o disco Futura faz parte de uma trilogia da banda iniciada após a morte de Chico. Como foi o processo de auto-afirmação e amadurecimento musical da banda?
Pupilo
- O amadurecimento seguiu o curso natural das coisas. Se Chico estivesse vivo, é claro que teria muito da visão dele. Mas o entrosamento entre nós era tão grande que seria mais um ali hoje desenvolvendo aquilo que estamos fazendo. É claro que jeito dele escrever é bem diferente do Jorge (Du Peixe) e isso é que deu suporte para trilharmos outros caminhos. Mas eu não acho que a gente fugiu muito do que a banda estava desenvolvendo.
Essa diferença, até para não comparar com o trabalho de Chico, mas nessa trilogia nós sempre buscamos uma evolução natural. Texturas, novas, timbres novos. É uma marca da banda. Entrar no estúdio afim e instigado a fuçar o que de melhor tem no estúdio. A gente ta numa franca ascensão a que diz respeito desse amadurecimento. Mesmo com a morte de Chico, a gente nunca parou para pensar ´o quê a gente vai fazer?´. É tudo tão entrosado entre nós, não só em relação com a banda, mas também com a cena de Recife de modo geral. É uma relação fudida de levantar aquele discurso e resgatar a auto-estima de todos após a morte de Chico. Além do envolvimento de vários lados seus.

DropMusic - O lado pessoal, né?
Pupilo
- Exatamente. A cidade de Recife de maneira geral sofreu com a perda de Chico. Isso trouxe uma bagagem que tira uma certa responsabilidade nossa na hora de fazer um som, ajuda a desencanar de qualquer preocupação.

DropMusic - Você citou a diferença nas letras por parte do que o Chico escrevia e o que o Jorge escreve. A temática das letras sempre foi um diferencial da Nação Zumbi. Muito se deve a formação cultural de vocês, no que diz respeito a livros, filmes, até preocupação social?
Pupilo
- Chico, apesar de ter muita psicodelia em suas letras, tinha um cunho mais social. O Jorge sempre curtiu trabalhar com design gráfico, desenho e tem um estilo de letra mais visual, que encaixa perfeitamente nessa fase mais psicodélica que a banda se encontra. Tem gente até que comenta que nesse disco nossos tambores ficaram mais pra trás. E o Jorge comenta uma coisa bacana, que em nenhum momento, em nenhum disco existe um instrumento que esteja em primeiro plano e isso tem a ver com a voz também. Ele até brinca que tem música que devia balbuciar a letra pra neguinho ir atrás, buscar fundo mesmo. Tanto que nesse disco resolvemos não colocar as letras no encarte, criar esse interesse nas pessoas prestarem atenção na banda como um todo, para que a voz seja considerada mais um instrumento e não o foco principal da atenção das pessoas.

DropMusic - Falando de referências culturais, fazem 12 anos que vocês estão na ativa. Com a explosão do movimento mangue beat em Recife foi formada uma cena que despontou artistas como o Mundo Livre S/A, Otto, mais recentemente o Cordel do Fogo Encantado. Como está essa cena hoje? Vocês são bem envolvidos?
Pupilo
- A gente ainda tem residência em Recife, apesar de passar a maior parte do tempo aqui em São Paulo. A cada dia amadurece um pouco mais essa cena. Na nossa época tínhamos que ir atrás, alugar puteiro no Recife antigo pra tocar, antes de revitalizarem o local. Saía com cartaz de xerox embaixo do braço. Hoje a cidade já dá um suporte legal. Tem várias casas de show bacanas, bandas legais como Bom Sucesso Samba Clube, DJ Dolores, o próprio Mundo Livre S/A que faz discos bem legais, Mobojó. É uma cena que está amadurecendo cada vez mais e conta com um suporte que não tinha antes. Recife é uma cidade que está se esforçando para não depender como dependia antes no início dos anos 90 do eixo Rio-São Paulo. Mas não é só Recife. Porto Alegre é um exemplo disso, Belém do Pará com o esquema das guitarradas. Quando a cena começou a ser formada em Recife, teve um enxurrada de bandas bacanas, mas não existia uma profissionalização. Hoje as rádios abrem espaço, a TV de certa forma. Vai cavando outro tipo de espaço. Não que seja mais fácil, mas se enxerga hoje um tipo de estrutura que vai desde o estúdio de ensaio à masterização, ao artista que faz um trabalho gráfico bacana. Isso atinge todas as áreas.

DropMusic - Recife especificamente sempre teve uma efervescência cultural grande. Qual é o segredo de Recife?
Pupilo
- A diversidade de pessoas do mundo que entraram no Brasil através de Pernambuco, com raiz ali. Você chega no litoral você tem povo de tudo que é cor. Desde fisionomia...

DropMusic - Descendência de holandeses, franceses, portugueses...
Pupilo
- Otto é um exemplo disso. É um galegão alto. Tem influência da África e dos colonizadores mais escrotos possíveis, mais que deixaram um legado cultural. A gente soube misturar o caldeirão cultural por conta da colonização que gerou uma diversidade gigantesca. Não foi à toa que o Chico teve a idéia de criar essa relação da cena musical com o mangue. Expressa essa diversidade cultural que existe em Recife. Sempre ouve muita troca de informação entre as pessoas envolvidas no mangue beat. Aquela turma que queria dar uma sacudida na cidade. Ou a gente muda o lugar ou muda de lugar. Tem que mudar a porra do lugar, chamar a atenção para o lugar que você vive é importante também.

DropMusic - Vocês da Nação Zumbi junto com o pessoal do Mundo Livre S/A têm noção da importância que o movimento mangue beat teve para com a cultura da cidade de Recife? Vocês têm idéia dessa representatividade?
Pupilo
- A gente têm consciência que temos um papel que foi muito além de nossas pretensões. Tocar, viajar e viver de música. Pudemos contribuir para um movimento cultural que estava parado. Acabou refletindo de modo geral no Brasil, pois outras pessoas viram que não se restringia somente à Pernambuco. O marasmo acontecia no Brasil inteiro. Lógico que temos essa consciência, mas nada de impor isso ou dar título. A melhor forma de valorizar essa conquista é tocar e ver as pessoas curtindo os discos que a gente faz.

Da Folha Universitária, especialmente para DropMusic

 

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