Nação Zumbi - dezembro/2005
Written by Renato Góes Thursday, 08 December 2005 23:44
A
consagração veio com os discos Da Lama Ao Caos (93) e Afrociberdelia
(95) que geraram hits como ´A Cidade´, ´Da Lama Ao Caos´, ´Manguetown´
e ´Maracatu Atômico´ de Jorge Mautner. Mas no carnaval de 1997 um
acidente de carro levou o carismático e talentoso vocalista. Aí veio a
pergunta: qual será o destino da Nação Zumbi?
Após
o choque da perda do amigo, os integrantes juntaram os cacos e
resolveram continuar na luta. O percussionista Jorge Du Peixe assumiria
os vocais e a banda manteria a mesma formação com Lúcio Maia nas
guitarras, Dengue no baixo, Pupilo na bateria, Toca Ogan, Marcos
Matias, Gilmar Bolla 8 e Da Lua na percussão e alfaias. O primeiro
disco da Nação Zumbi sem Chico Science, intitulado Rádio S.Amb.A.
(2000), se mostrou mais complexo que os anteriores e passou meio que
despercebido. O destaque dele é a canção ´Quando A Maré Encher´. Porém
com Nação Zumbi (2002) a banda se auto-afirmou demonstrando que tinha
talento sim e que seu maracatu pesava mais que uma tonelada. O
recém-lançado Futura (2005), o segundo pela gravadora Trama, apenas
comprova essa tese. Mais psicodélico e com fortes influências do funk,
o álbum finaliza uma trilogia da era pós Chico. Num bate-papo
descontraído, o baterista e também produtor musical Pupilo fala sobre o
novo CD, sobre a amizade e união entre os integrantes e sobre a cena
cultural de Recife.
DropMusic - O novo disco Futura tem
um quê mais psicodélico, funkeado, o que difere bastante do CD
anterior. Foi intencional essa mudança?
Pupilo - Mesmo do
Da Lama Ao Caos para o Afrociberdelia já foi bem diferente um disco do
outro. Eram outras referências que a banda tinha. A gente tenta trazer
a cada disco algo novo, nada muito forçado, mas como a gente tem uma
galera que ouve muita coisa diferente é natural que determinadas
influências aflorem mais em determinado disco. No disco anterior, a
gente se utilizou mais das influências do dub. Tem muito delay, os
tambores estão mais pra frente, eram essas a referências principais.
Já
no Futura, a gente se utilizou mais da psicodelia, no que se refere às
texturas, timbres, mas nada a ver com o psicodelismo dos anos 60 e 70.
Nada muito ligado ao flower power. Mais a ver com a psicodelia do
afro-futurismo. Até é um lance da gente brincar com o lance da
psicodelia em preto e branco. Se você reparar, a capa do disco é em
preto e branco.
DropMusic
- O disco novo contou com a produção do norte-americano Scotty Hard,
conhecido por produzir álbuns de hip hop. Mas o disco caminhou para um
outro lado. O que você pode falar da produção de Futura?
Pupilo -
A gente já conhecia o trabalho do Scotty Hard por causa da galera do
hip hop underground, mais especificamente de uma banda chamada New
Kingdom que tinha uma sonoridade muito bacana para aquela época. Ele
também fez alguns trabalhos com jazz contemporâneo, fez a mixagem de um
disco da Björk. A gente mandou uns discos pra ele, que pirou no som, e
no nosso disco anterior só mixou. Aí criou-se uma amizade. O cara foi
pra Recife, passou o carnaval com a gente lá, passou a consumir música
brasileira, levamos ele pra comprar vinil, não só em Recife, mas em São
Paulo e no Rio. É um cara que foi conhecendo a música brasileira e a
Nação Zumbi. Um belo dia ele ligou e conversamos a respeito de manter o
mesmo formato: a gente produzindo e ele mixando o álbum. Aí ele disse
que não, que queria participar, e acabou rolando. Todo esse processo
que ele passou com a gente ao longo de três anos acabou refletindo no
estúdio. A gente gravou super rápido, por que já captou rápido o som
das músicas com meio caminho andado pra mixagem. Teve mais tempo para
trabalhar as vozes. Houve uma unidade no trabalho.
DropMusic
- Apesar de vocês lançarem um disco por uma gravadora, vocês são
considerados por crítica e público uma das bandas independentes mais
importantes da música brasileira. A que se deve essa ´independência´?
Pupilo -
Eu entendo essa nossa independência como artística. Eu acho que para
qualquer banda, se você tem uma gravadora ou selo que dê suporte a sua
música atingir o maior número de pessoas possível, acho fundamental.
Por isso a gente está numa gravadora, mas não é à toa que a gente ta na
Trama, que é uma gravadora que sempre respeitou a nossa liberdade
artística. Acho que vai por aí.
Quem conhece a gente sabe da
importância que a gente dá à liberdade artística, de entregar um
produto que a gente acredita, que tem o aval da banda, que tá do jeito
que a gente pensou. Não é da nossa praia fazer conchavo com a
indústria. De uma certa forma cria um respeito no meio artístico, mas
também gera uma antipatia. A real é que enquanto a gente puder deitar a
cabeça sossegado no travesseiro, vamos continuar a fazer discos assim.
DropMusic
- Vocês passaram momentos ruins com a morte de Chico Science e o
cancelamento do contrato que vocês tinham com a Sony Music.
Pupilo -
Sem falar na cobrança que existia por parte de Chico da gente se
desvencilhar dessa preocupação de agradar A, B ou C. A partir do
momento que passamos a olhar pra gente e fazer as coisas sem medo,
passamos a dar uma identidade a banda e a cena de Recife cresceu de uma
maneira geral.
DropMusic
- Já que falamos dele, o disco Futura faz parte de uma trilogia da
banda iniciada após a morte de Chico. Como foi o processo de
auto-afirmação e amadurecimento musical da banda?
Pupilo -
O amadurecimento seguiu o curso natural das coisas. Se Chico estivesse
vivo, é claro que teria muito da visão dele. Mas o entrosamento entre
nós era tão grande que seria mais um ali hoje desenvolvendo aquilo que
estamos fazendo. É claro que jeito dele escrever é bem diferente do
Jorge (Du Peixe) e isso é que deu suporte para trilharmos outros
caminhos. Mas eu não acho que a gente fugiu muito do que a banda estava
desenvolvendo.
Essa diferença, até para não comparar com o trabalho
de Chico, mas nessa trilogia nós sempre buscamos uma evolução natural.
Texturas, novas, timbres novos. É uma marca da banda. Entrar no estúdio
afim e instigado a fuçar o que de melhor tem no estúdio. A gente ta
numa franca ascensão a que diz respeito desse amadurecimento. Mesmo com
a morte de Chico, a gente nunca parou para pensar ´o quê a gente vai
fazer?´. É tudo tão entrosado entre nós, não só em relação com a banda,
mas também com a cena de Recife de modo geral. É uma relação fudida de
levantar aquele discurso e resgatar a auto-estima de todos após a morte
de Chico. Além do envolvimento de vários lados seus.
DropMusic - O lado pessoal, né?
Pupilo -
Exatamente. A cidade de Recife de maneira geral sofreu com a perda de
Chico. Isso trouxe uma bagagem que tira uma certa responsabilidade
nossa na hora de fazer um som, ajuda a desencanar de qualquer
preocupação.
DropMusic
- Você citou a diferença nas letras por parte do que o Chico escrevia e
o que o Jorge escreve. A temática das letras sempre foi um diferencial
da Nação Zumbi. Muito se deve a formação cultural de vocês, no que diz
respeito a livros, filmes, até preocupação social?
Pupilo -
Chico, apesar de ter muita psicodelia em suas letras, tinha um cunho
mais social. O Jorge sempre curtiu trabalhar com design gráfico,
desenho e tem um estilo de letra mais visual, que encaixa perfeitamente
nessa fase mais psicodélica que a banda se encontra. Tem gente até que
comenta que nesse disco nossos tambores ficaram mais pra trás. E o
Jorge comenta uma coisa bacana, que em nenhum momento, em nenhum disco
existe um instrumento que esteja em primeiro plano e isso tem a ver com
a voz também. Ele até brinca que tem música que devia balbuciar a letra
pra neguinho ir atrás, buscar fundo mesmo. Tanto que nesse disco
resolvemos não colocar as letras no encarte, criar esse interesse nas
pessoas prestarem atenção na banda como um todo, para que a voz seja
considerada mais um instrumento e não o foco principal da atenção das
pessoas.
DropMusic
- Falando de referências culturais, fazem 12 anos que vocês estão na
ativa. Com a explosão do movimento mangue beat em Recife foi formada
uma cena que despontou artistas como o Mundo Livre S/A, Otto, mais
recentemente o Cordel do Fogo Encantado. Como está essa cena hoje?
Vocês são bem envolvidos?
Pupilo - A gente ainda tem
residência em Recife, apesar de passar a maior parte do tempo aqui em
São Paulo. A cada dia amadurece um pouco mais essa cena. Na nossa época
tínhamos que ir atrás, alugar puteiro no Recife antigo pra tocar, antes
de revitalizarem o local. Saía com cartaz de xerox embaixo do braço.
Hoje a cidade já dá um suporte legal. Tem várias casas de show bacanas,
bandas legais como Bom Sucesso Samba Clube, DJ Dolores, o próprio Mundo
Livre S/A que faz discos bem legais, Mobojó. É uma cena que está
amadurecendo cada vez mais e conta com um suporte que não tinha antes.
Recife é uma cidade que está se esforçando para não depender como
dependia antes no início dos anos 90 do eixo Rio-São Paulo. Mas não é
só Recife. Porto Alegre é um exemplo disso, Belém do Pará com o esquema
das guitarradas. Quando a cena começou a ser formada em Recife, teve um
enxurrada de bandas bacanas, mas não existia uma profissionalização.
Hoje as rádios abrem espaço, a TV de certa forma. Vai cavando outro
tipo de espaço. Não que seja mais fácil, mas se enxerga hoje um tipo de
estrutura que vai desde o estúdio de ensaio à masterização, ao artista
que faz um trabalho gráfico bacana. Isso atinge todas as áreas.
DropMusic - Recife especificamente sempre teve uma efervescência cultural grande. Qual é o segredo de Recife?
Pupilo -
A diversidade de pessoas do mundo que entraram no Brasil através de
Pernambuco, com raiz ali. Você chega no litoral você tem povo de tudo
que é cor. Desde fisionomia...
DropMusic - Descendência de holandeses, franceses, portugueses...
Pupilo -
Otto é um exemplo disso. É um galegão alto. Tem influência da África e
dos colonizadores mais escrotos possíveis, mais que deixaram um legado
cultural. A gente soube misturar o caldeirão cultural por conta da
colonização que gerou uma diversidade gigantesca. Não foi à toa que o
Chico teve a idéia de criar essa relação da cena musical com o mangue.
Expressa essa diversidade cultural que existe em Recife. Sempre ouve
muita troca de informação entre as pessoas envolvidas no mangue beat.
Aquela turma que queria dar uma sacudida na cidade. Ou a gente muda o
lugar ou muda de lugar. Tem que mudar a porra do lugar, chamar a
atenção para o lugar que você vive é importante também.
DropMusic
- Vocês da Nação Zumbi junto com o pessoal do Mundo Livre S/A têm noção
da importância que o movimento mangue beat teve para com a cultura da
cidade de Recife? Vocês têm idéia dessa representatividade?
Pupilo -
A gente têm consciência que temos um papel que foi muito além de nossas
pretensões. Tocar, viajar e viver de música. Pudemos contribuir para um
movimento cultural que estava parado. Acabou refletindo de modo geral
no Brasil, pois outras pessoas viram que não se restringia somente à
Pernambuco. O marasmo acontecia no Brasil inteiro. Lógico que temos
essa consciência, mas nada de impor isso ou dar título. A melhor forma
de valorizar essa conquista é tocar e ver as pessoas curtindo os discos
que a gente faz.
Da Folha Universitária, especialmente para DropMusic




