Wednesday Sep 17

Fresno - maio/2008

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foto: Valdir AntonelliCom o novo álbum, Redenção, a Fresno aposta em ser uma banda pop, mas sem esquecer dos fãs antigos. Será que vão conseguir estourar? Confira esta entrevista com o vocalista Lucas, que fala sobre as mudanças enfrentadas pelo grupo, download, suas novas influências e, obviamente, sobre o emo.

* A entrevista foi feita no final de abril, mas de lá pra cá muita coisa mudou na Fresno, já que o baterista Cuper deixou o grupo. Entramos em contato com a assessoria do grupo e enviamos algumas questões sobre o assunto, assim que elas forem respondidas, também entrarão na entrevista.

DropMusic: A mudança de estilo, grande para alguns, pequena para outros, surgiu como algo natural ou vocês achavam que tinham que mudar para a banda chegar a um público maior?
Lucas: 
Eu gosto de chamar essa mudança de evolução. Ela está presente em todos os discos. Em "Redenção" ela é mais aparente porque houve muitas mudanças desde "Ciano" até hoje, como a entrada do Rodrigo Tavares, assumindo o baixo e assinando algumas composições comigo. Fora isso, houve uma mudança pra São Paulo, incluindo o período em que moramos sob o mesmo teto. Essas situações forjaram uma mudança ainda maior. Somos outros músicos, outras pessoas, e esse disco foi feito durante essa fase de mudança. Nada mais natural do que soar diferente. E quem nos acompanha mais atentamente já previu essa mudança quando lançamos o single "Polo", no DVD MTV Ao Vivo 5 bandas de Rock, gravado quando ainda éramos independentes.

DM: A escolha de "Uma Música" para primeiros single foi proposital, para marcar estas mudanças?
Lucas:
Numa fase como essa, numa gravadora grande, tudo é proposital, pensado e repensado. Essa música é a que dialoga com um maior número de pessoas. Ela não aponta para um público específico, ou faixa etária. É isso que eu gosto nela. É uma faixa que mostra uma vertente que sempre esteve latente nas nossas músicas, desde o início, que é a veia pop.

DM: Vocês já citaram algumas influências para Redenção, como Keane e Coldplay, mas em uma entrevista recente citam até mesmo a banda Toto, que deve ser totalmente desconhecida de boa parte dos fãs da banda. Como mesclar tais influências e não correr o risco de fazer um álbum descaracterizado?
Lucas:
Eu sou defensor da idéia de que se deve ampliar ao máximo o espectro de influências, quando se quer fazer algo genuíno e que soe como novidade. Eu gosto de inúmeras bandas que têm uma sonoridade parecida com a nossa, mas ficar retido a referências semelhantes seria autofagia, gerando um disco redundante e sem nada a acrescentar. Quanto ao Toto, eles são apenas mais uma dessas influências distantes que a gente tem, e são um exemplo de banda que passeia pelas mais variadas influências, sem perder identidade musical.

DM: O seu projeto solo, Beeshop, acústico e com muitas referências ao indie pop, pode ser chamado de embrião, ou pelo menos de uma idéia, em relação às mudanças?
Lucas:
Acho que pode, devido ao fato de eu ser responsável pela composição da maior parte do repertório do disco. Composição é um exercício constante, e no Beeshop eu procuro ampliar meus horizontes como compositor. Com esse projeto eu aprendi e desenvolvi novas técnicas e abordagens que certamente influenciaram esse trabalho da Fresno.

DM: Como vocês acham que os fãs estão recebendo o novo trabalho?
Lucas:
Os fãs estão recebendo com uma satisfação que nem a gente esperava. São fãs muito fiéis e atentos ao nosso momento como banda. Eles já previam essa evolução e, mesmo assim, se surpreenderam com o resultado. Alguns podem até ter estranhado essa total ausência do hardcore melódico, mas foi uma vontade nossa, um risco que corremos deliberadamente.

DM: Em algumas entrevistas vocês assumem que querem se tornar referência em pop/rock no país. Não têm receio de assumirem este "rótulo" que, pra muita gente, é um palavrão tão grande quanto "emo"?
Lucas:
Eu diria que, hoje em dia, não existe palavrão tão grande como "emo", no mundo da música. Era um estilo musical que foi se transformando em conduta comportamental adolescente até chegar à total descaracterização da palavra, hoje assumindo os mais diversos significados pejorativos na boca de gente desinformada. Se é pra continuar chamando a gente de "banda emo", que seja pela nossa temática nas letras, que não mudou, e que ainda nos coloca ao lado dos também emos Beatles e, por que não, o próprio Toto, que também fala de amor assim como a gente.

DM: A banda não é nova, vocês estão ficando mais velhos e seus fãs também, como é falar para este fã, que pode, em algum momento, achar que vocês estão falando "mais do mesmo" e também alcançar aquele fã mais novo, que foi atraído exatamente por estas letras e arranjos?
Lucas:
Esse é o desafio que encaramos com esse disco: ter significado na vida dos fãs mais antigos, mostrar essa evolução com continuidade e, ao mesmo tempo, mostrar uma radiografia do nosso momento atual para os fãs que vão conhecer a banda agora. É o desafio de romper algumas amarras estilísticas sem romper com um passado do qual nos orgulhamos muito. É agradar não só o ouvinte desatento de rádio como o público mais crítico e exigente, mas livre de preconceitos musicais.

DM: A Fresno cresceu graças à internet, liberando músicas na rede e mantendo contato com os fãs de forma on-line, mas neste novo disco apenas duas músicas, "Uma Música" e "Polo" foram colocadas na página da banda no MySpace e nenhuma na página da Tramavirtual. Isso não é ir contra ao que até então vocês pregavam?
Lucas
: A gente sempre liberou 2 ou 3 MP3´s (nunca os álbuns completos) para que o público tivesse acesso ás músicas que, no nosso julgamento, melhor ilustravam a cara dos discos. Eram os nossos singles, as amostras grátis, para que as pessoas ouvissem e comprassem nosso disco, caso o mesmo lhes agradasse. No entanto, hoje podemos contar com centenas de rádios tocando a nossa música, invadindo as casas das pessoas, com o mesmo intuito dos nossos MP3´s da fase independente: divulgar o disco, para incentivar a compra do mesmo. Sempre tivemos o intuito de vender o máximo de discos possível, e foi assim que atingimos a marca dos 30 mil discos, ainda na fase independente. O TramaVirtual é um portal voltado à música independente e que, inclusive, remunera as bandas, conforme a quantidade de arquivos baixados. Optamos por não colocar nossas músicas novas lá, justamente para abrir espaço para as bandas independentes que realmente precisam desse dinheiro resultante de downloads. Mantivemos lá apenas o nosso repertório dessa fase pré-gravadora. E esse contato on-line com os fãs ainda acontece da mesma forma de sempre, com a diferença de que hoje esse público é muito maior e não podemos mais fazê-lo da forma individualizada de anteriormente.

DM: Aproveitando, com o crescimento da banda já é possível encontrar o disco em banquinhas de CD piratas, como vocês lidam com a pirataria e o que acham dos fãs que baixam o trabalho pela internet?
Lucas:
O CD pirata é um problema que tem uma causa muito mais ampla do que o preço alto do CD original. Eu tenho certeza de que o vendedor de CD´s piratas trocaria as ruas por um emprego melhor, uma oportunidade de subir na vida. Ele está lá porque é apenas mais um que foi excluído do sistema e precisa ganhar seus trocados de uma forma marginal. Então a luta não é contra o CD pirata e sim contra a injustiça social que põe essa sombra escura no futuro de muita gente que não sabe onde vai dormir no próximo mês, pois não teve como pagar o aluguel. É a mesma angústia do camelô, do vendedor de vale-transporte e até do batedor de carteiras: é tudo ilegal, mas é uma saída plausível quando não se tem o que comer. Quanto ao fã que baixa nossos discos em casa, mesmo tendo dinheiro para comprá-los, é uma luta diferente. Ele baixa pois, ao contrário da gente, ele não tem incutida na cabeça a cultura do CD, de comprar o disco, apreciar o encarte e ler as letras, enquanto ouve o disco no aparelho de som da sala de estar. Isso não existe mais e não adianta lutar contra essa revolução comportamental que a Internet desencadeou. O que temos que fazer é desenvolver meios de transformar essa demanda por música digital em dinheiro pro artista se sustentar. Creio que o Brasil encontrou um caminho para isso por meio da venda de música através do celular. É uma tendência mundial que tem reflexos muito mais expressivos no Brasil do que em vários outros pontos do globo. O fã da Fresno nunca vai comprar uma música no iTunes usando cartão de crédito do pai, mas com certeza vai adquirir nosso disco inteiro para ouvir no celular com uma simples mensagem SMS. A música saiu da sala de estar e foi pro bolso, e eu compro discos apenas para colocá-los lacrados na prateleira de casa, enquanto levo comigo meu MP3 player para todo lugar. 

DM: Ainda sobre este assunto, Redenção já está na sua segunda tiragem de 8 mil discos, vocês esperavam que o novo disco vendesse tão rapidamente?
Lucas:
  Ninguém esperava. Num mercado em crise permanente, isso é de se tirar o chapéu, com certeza. Sempre fomos alvo de muitas e críticas e nem 1 milhão de cópias vendidas vai mudar isso, mas são acontecimentos como esse que nos dizem que estamos no caminho certo. Não fazemos música para músicos, críticos e jornalistas. Fazemos músicas para quem quer e precisa de algo para se identificar, um discurso para tomar como seu. Fazemos música para nós mesmos e para as pessoas que estiverem abertar à nossa mensagem.

DM: Em Redenção vocês trazem três canções já lançadas anteriormente, "Polo", "Contas Vencidas" e "Alguém Que Te Faz Sorrir". Por que colocá-las no trabalho no lugar de outras três inéditas?
Lucas:
"Polo" e "Contas Vencidas" são músicas que foram feitas para esse disco, e só foram lançadas anteriormente porque precisávamos de duas músicas inéditas para o repertório do DVD MTV ao Vivo 5 Bandas de Rock. Já "Alguém Que Te Faz Sorrir" é uma canção que achamos que foi muito sub-aproveitada, no lançamento do "Ciano". O clipe dela teve pouca veiculação em TV e não queremos deixá-la presa no passado. Optamos por apresentá-la ao público que está nos conhecendo agora numa roupagem totalmente diferente, justamente para que ela não seja esquecida.

DM: A Fresno, podemos dizer, é uma das poucas bandas que mesmo independente continuaria chamando a atenção da mídia e dos fãs. Como foi esta transição para uma grande gravadora e no que isso influenciou o novo trabalho do grupo?
Lucas:
Só quem viveu o que vivemos sabe como é. Nós abandonamos amigos, empregos e família quando viemos para São Paulo e experimentamos a sensação de aparecer na TV todos os dias, responder a várias entrevistas e, ao mesmo tempo, contar os trocados para pagar o aluguel da casa em que nós 4 morávamos juntos. Permanecendo na independência, isso não iria mudar. Sou uma pessoa de ambições muito maiores do que isso. A gente atingiu o teto do independente, e nunca foi de nosso interesse parar de crescer. A gente nunca correu atrás de gravadora e, justamente por isso, procuramos chamar atenção delas sem ter que ficar mandando CD´s que, na maioria dos casos, vão direto pro lixo. O contrato surgiu exatamente no momento em que precisávamos de algo mais, de um empurrão para nos tornarmos a banda que sonhamos ser. Estamos longe do topo, e isso é um incentivo para continuarmos trabalhando duro.

DM: Apesar do sucesso anterior, mesmo tendo destaque, a Fresno ainda não chamava tanta atenção da mídia como está acontecendo agora. Como vocês lidam com este novo assédio?
Lucas:
O assédio existe desde os nosso primeiros lampejos de sucesso no underground. O underground te ensina a dar valor ao fã, a tratá-lo de igual pra igual e remove esse estigma de mito inalcançável que muitos artistas carregam. Esse crescimento foi gradual e a gente fica muito feliz de estar vivendo esse momento. Se isso acarretar em não mais poder visitar lugares específicos em horários específicos - o que já ocorre -, paciência. Não vai tirar pedaço.

DM:  Pra terminarmos, por que vir para São Paulo e deixar o Sul, familiares e amigos?
Lucas:
A gente vem do Rio Grande do Sul. Não é apenas Sul. É Extremo Sul. Essa barreira geográfica impossibilitava a realização de boas turnês e encarecia imensamente os custos de transporte. São Paulo, além de ficar numa região mais central, é inegavelmente onde estão os holofotes da mídia. A gente precisava de turnês viáveis e mais exposição e São Paulo atende aos requisitos. A saudade de Porto Alegre é imensa e esse saudosismo aparece em diversas faixas do disco. No entanto, temos consciência de que, como em qualquer outra profissão, temos que abrir mão de diversas coisas. Mas é o nosso sonho, e estamos aqui para realizá-los.

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