Bando do Velho Jack - junho/2008
Written by Marco A. Ribeiro Monday, 02 June 2008 17:46
Fechei os olhos e fiquei só escutando
o som. Devo ter cochilado mas despertei rapidinho com os primeiros
acordes de Bicho do Mato, clássico gravado originalmente pelo Som Nosso
de Cada Dia, banda que eu lamentava não ter conseguido assistir no
Teatro Municipal, poucas horas antes. Num pulo, corri para frente do
palco (será que são eles?) mas não era o Som Nosso e sim o Bando do
Velho Jack, que (confesso envergonhado) ainda não conhecia. Mas não me
decepcionei. Muito pelo contrário. O rockão setentista sem firulas, sem
frescuras, com aquele cheiro de liberdade, de estrada, cabelo ao vento,
gente jovem reunida, essas coisas, serviu de revigorante que me ajudou
a enfrentar a maratona que ainda estava na metade.
Já na segunda-feira, devidamente recuperado (afinal, atravessei as vinte e quatro horas no ar no dia anterior), estava eu garimpando umas raridades na loja do meu amigo Magrão (Aqualung, na Galeria do Rock) quando chega um baixinho muito simpático que não reconheci, a princípio. Como eu estava com um DVD do Made In Brazil nas mãos e o Magrão perguntou apontando para a caixinha “ô Bosco, é você aqui no Jô né?” (se referindo a uma apresentação do Made no programa do Jô Soares), eu liguei a antena.
Depois, já enturmado e trocando figurinhas, fiquei sabendo que o baixinho simpático e bastante conhecedor de rock and roll, foi o baterista do (saudoso e genial) Alta Tensão, banda de heavy tradicional dos anos oitenta, oriunda de Campo Grande, e tocou no Made in Brazil (bom, quem ainda não tocou? Desconfio que até eu!!). Era nada menos que João Bosco, o piloto das baquetas no Bando do Velho Jack.
Sem hesitar, catei logo os dois álbuns disponíveis dos caras. Como Ser Feliz Ganhando Pouco que, além da sensacional faixa título, tem a divertida “Velhos e Velhas”, versões para “Cavalheiro da Lua” (Almir Sater) e “Não Fique Triste” (d’O Peso) e uma faixa escondida, onde está a cover matadora de “Casa do Rock”, da lendária Casa das Máquinas. Já o novíssimo álbum, Bicho do Mato, é um pouco (mas só um pouquinho) menos pesado e mais autoral, mas não menos delicioso. Nele está o hino (sim, não tem como classificar de outra forma) “Pedras que Rolam” que, sozinha, já vale a bolachinha. Claroq que outras pérolas valem ser citadas como “Gasolina”, “Mais Perto de Mim” e a cover (já citada) de “Bicho do Mato”.
Não reencontrei o Bosco mas consegui bater um papo virtual com o baixista e o guitarrista do Bando (Marcos Yaluzz e Fábio Terra, respectivamente) para conhecer um pouquinho mais desta moçada que faz um rock de verdade, como diria Osvaldo Vechionne.
DropMusic: A sonoridade da banda pode ser considerada “datada” pela chamada crítica especializada. Isso incomoda?
Fábio Terra:
Em absoluto, hoje em dia um crítico que tem um pensamento desse está
fadado ao suicídio profissional. O som de artistas como Lenny Kravitz,
Black Crowes e, até mais recente, como Ben Harper tem forte influência
dos anos 70. Eles são “datados”? Não. Como somos assumidamente uma
banda de classic rock ou 70’s rock ou até mesmo jam band, quando algum
crítico faz essa “observação” super moderna, na verdade ele acerta em
cheio o nosso estilo e como nós somos.
Marcos Yallouz:
Não. Ela é datada mesmo. Isso é um fato. O que interessa é que há muita
gente que gosta dessa sonoridade, inclusive nós! Isso é o que importa.
DM: Qual a opinião da banda sobre o direcionamento atual tomado pela indústria fonográfica (onda emo, axé)?
FT:
Não sei se ainda existe uma indústria fonográfica tão forte assim.
Bandas ou até artistas que são manipulados pela indústria são efêmeros
e quase sempre caem no esquecimento rapidamente. Não posso falar sobre
axé, pois como é um estilo que realmente não faz a minha cabeça, não
saberia citar o que está acontecendo. Sei de coisas que estão
acontecendo como Ivete Sangalo e Claudia Leite que eram de bandas que
agitavam festas de carnaval e que agora têm uma carreira solo, mas
acredito que o Axé Music já esteja totalmente incorporado ao dia-a-dia
cultural do brasileiro e mesmo quem mora em outros estados sempre irá
ter público no nordeste, em especial na Bahia. Quanto ao Emo eu acho
até legal porquê é uma vertente do rock. O cara pode começar escutando
My Chemical Romance, Panic At Disco e conhecer outras bandas, o que se
chama hoje de Emo é uma abreviatura de Emotional Hardcore e que começou
com bandas como Bad Religion, mas depois trocaram o rótulo para bandas
mais pop do que hardcore. Para mim, o Emo de hoje e como o Gotic Rock
dos anos 80 ou gótico aqui no Brasil. Não escuto, mas nada contra.
MY:
O velho consumismo descartável. A moda é criar moda e depois
descartá-la substituindo com outra moda. Mas, é difícil imaginar que
isso não aconteça.
DM: As
influências do som do Bando são claras. Anos 70 na cabeça, com muito
Tutti Frutti, Peso, Made In Brazil e Casa das Máquinas. Vocês acreditam
que nada de bom foi feito depois disto? (exemplo de grupos dos anos 80,
90 e 2000 em diante).
FT: Seria uma estupidez dizer que
nada de bom foi feito depois dos anos 70, e também hipocrisia dizer que
só as bandas dos anos 70 eram boas. Grandes coisas foram feitas depois.
Apenas a produção dos anos 80 é que foi um lixo, ou melhor, digo os
timbres e os sons captados. Foi o começo do uso de nova tecnologia,
então coisas pavorosas ocorreram, como todos os timbres de bateria dos
anos 80 que são detestáveis, sem falar obviamente do surgimento da New
Wave, tão empolgante quanto um xarope de chuchu. Mas tivemos o Punk
Rock e o Hard Rock nos anos 80, nos 90 tivemos o Grunge e, agora,
estamos vivendo um momento de misturas sonoras dos anos 70 com 80.
Gosto do U2, The Cult, The Cure e Duran Duran por exemplo, que são
bandas da década de 80. Da década de 90, gosto do RHCP, Soundgarden,
Gov’t Mule, Black Crowes, Ben Harper, Lenny Kravitz.
MY: Eu
acho que surgiram muitas coisas boas até para nos influenciar. Bandas
como Black Crowes e The Cult são exemplos disso. Eu gosto do rock dos
anos 80 também. Apenas não me influencia musicalmente, mas gosto e
respeito todo o movimento de rock 80 nacional.
DM: Mato
Grosso do Sul não é, exatamente, uma cidade onde o rock tem uma
penetração relevante (eu acho!!). É difícil estar longe demais das
capitais?
FT: É sim no que diz respeito aos contatos, shows
e evidentemente à sobrevivência. Digamos que manter uma banda de rock
em um estado que tem como sua trilha sonora o sertanejo por mais de 12
anos significa que você tem que ser durão.
MY: Esse
lance de “penetração relevante” é por sua conta! (hehehe). É difícil
sim. Torna mais difícil conseguir shows, pois não conseguimos preços
competitivos com bandas locais ou próximas. E para ficar conhecido,
precisamos efetivamente tocar muito.
DM: Todo
roqueiro tem um lado obscuro no que se refere a preferência musical
(exemplo, eu adoro Odair José). O que vocês ouvem escondidos no quarto?
FT: Cara não é fora do rock porque ela tem uma banda de rock também, mas eu sou fã confesso da Linsey Lohan. (risos)
MY: Eu ouço um pouco de MPB e jazz também.
DM:
O bando grava de forma independente mas se conseguisse um (bom)
contrato com uma grande gravadora e o produtor resolvesse “polir” o
som, aproximando a sonoridade do grupo às bandas que estão na moda,
qual seria a reação? (para ter a idéia da situação, ouça A Minha Renda,
da Plebe Rude).
FT: Se um grande gravadora nos contratasse
seria por causa do som. Então eu acho que não haveria espaço para se
polir o som, acho até o contrário forçaríamos ainda mais uma sonoridade
vintage explorando as condições favoráveis que são de se esperar de uma
grande gravadora. Veja que já temos uma carreira de 12 anos com quatro
discos. Uma gravadora ganharia de cara os nossos fãs, não é mesmo? Mas
acho isso impossível e utópico.
MY: Acho que é um
caso muuuuito específico. Há muitas variáveis no meio. Com certeza
temos muito a ser polidos sem perder a essência rock que queremos ter.
Mas, isso varia muito. Se o polimento fosse para algo que não nos
agrada, espanaríamos antes.
DM: Recentemente,
o Brasil perdeu um dos seus maiores músicos, o guitarrista Wander
Taffo. Assim como ele, outros grandes instrumentistas brasileiros têm
pouco ou nenhum espaço na mídia. Com raras exceções, é possível dizer
que a rádio deixou de ser representativa como era há vinte anos?
FT:
Os instrumentistas não têm um espaço na mídia porque se preocupam
demais com uma coisa: música. Já quem não toca pode se preocupar com
roupas e cabelos e como vai falar na MTV da cidade, ou como vai armar a
próxima coisa, ou seja, o marketing é muito importante seja para uma
banda, artista ou instrumentista. Wander Taffo era um abnegado do
instrumento e da melhoria dos músicos no Brasil. Montou uma das maiores
escolas da América Latina e fez parte de várias bandas importantes. Seu
último projeto que estava para ser realizado agora em julho era o
retorno da banda Taffo. Já falando sobre representatividade das rádios,
basta sintonizar e ouvir, enquanto existir o “jabá”, a grana por fora,
o “faz-me rir” as rádios continuarão tocando quem pagar mais. Existe
uma regra no show business: se você somente tocar em rádios ninguém
saberá qual é o rosto da música. Raras “bizonhas” exceções que resolvem
fazer o lixo dos lixos musicais aparecerem na mídia. Exemplo, Tiririca
com a piada musical Florentina, e esses funks cariocas com alto teor
literário, que volta e meia os DJs insistem em colocar.
MY:
O rádio ajuda a divulgar. É um meio de comunicação de massa, não tem
duvida. Não adianta atingir apenas quem gosta ou procura. Para um
sucesso verdadeiro é preciso atingir também quem ouve rádio e aceita e
gosta do que estiver tocando sem pensar. Essa massa é muito
significativa para o consumo. Não tem como ter sucesso e reconhecimento
se você não for amplamente conhecido.
DM: A energia no palco é uma marca do Bando. Algum plano de gravar um ao vivo?
FT: Claro que existe, mas ainda é um projeto caro que colocaremos em prática em uma próxima etapa.
MY: Claro, sempre. Falta apena$ viabilizar alguma$ coisa$! (risos)
DM: Que convidado(s) o Bando gostaria de ter em seu próximo CD? (vale expressar apenas o desejo).
FT: No
primeiro CD não tivemos participações. No segundo Paulo Carvalho, da
banda Velhas Virgens, deu as caras no estúdio além de vários músicos
próximos do Bando. No nosso terceiro CD foi a vez de Paulo Simões, um
dos compositores de Trem do Pantanal e um de nosso heróis. No mais
recente disco Big Gilson deu uma envenenada com seu slide. Para o
próximo não sabemos quem vamos chamar, mas é certeza que alguém deva
gravar. Até porque, pouca gente deve saber disso, temos grandes fãs
músicos, o que é um privilégio para nós. Assim como nós gravamos nos
discos deles, vamos fazer com que eles trabalhem no nossos também.
(risos). Quanto ao desejo, cara, eu gostaria que o Warren Haynes
(Allman Brothers, Gov’t Mule) gravasse com a gente, mas isso é sonho,
não é?.
MY: O Oswaldo do Made já é uma divida antiga de participação. Seria uma boa.
DM: Aparentemente, rola um clima bem cordial entre os membros. Mas há momentos em que o bicho pega?
FT: Discussões normais sobre que musica ou arranjo tocar, essas coisas de sempre.
MY: Nunca aconteceu porrada (mas quase)! Mas, atrito tem sempre. É normal em 13 anos de convívio.
DM: Para fechar, planos para o futuro, turnê em andamento, recado para os fãs, carreira solo. O que vem por aí?
Fábio Terra:
Divulgar o CD Bicho do Mato e tocar em mais capitais levando o som da
banda para mais pessoas. Recados para os fãs: compareçam aos nossos
shows, acessem o nosso site www.obandodovelhojack.com.br,
comprem os nossos CDs e ajudem a banda a continuar na estrada (risos).
Quanto à carreira solo, bom, eu não tenho tempo. Tenho um projeto
paralelo que se chama Fábio Corvo e Os Malditos do Cerrado, onde toco
folk rock, mas que está totalmente parado em virtude do Bando,
obviamente. Já o que vem vindo por aí são: dois CDs novos, uma
coletânea e um CD de inéditas. Rockabraço do Fábio Terra (Corvo),
guitarrista d’O Bando do Velho Jack.
Marcos Yallouz: Espero que muitos CDs, DVDs e shows apesar da dificuldade. O resto é imprevisível.
Agradecimento especial a Vanessa Amin, que tornou possível a entrevista e um grande abraço ao João Bosco, um verdadeiro roqueiro da pesada.




