Bando do Velho Jack - junho/2008

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divulgaçãoFechei os olhos e fiquei só escutando o som. Devo ter cochilado mas despertei rapidinho com os primeiros acordes de Bicho do Mato, clássico gravado originalmente pelo Som Nosso de Cada Dia, banda que eu lamentava não ter conseguido assistir no Teatro Municipal, poucas horas antes. Num pulo, corri para frente do palco (será que são eles?) mas não era o Som Nosso e sim o Bando do Velho Jack, que (confesso envergonhado) ainda não conhecia. Mas não me decepcionei. Muito pelo contrário. O rockão setentista sem firulas, sem frescuras, com aquele cheiro de liberdade, de estrada, cabelo ao vento, gente jovem reunida, essas coisas, serviu de revigorante que me ajudou a enfrentar a maratona que ainda estava na metade.

Já na segunda-feira, devidamente recuperado (afinal, atravessei as vinte e quatro horas no ar no dia anterior), estava eu garimpando umas raridades na loja do meu amigo Magrão (Aqualung, na Galeria do Rock) quando chega um baixinho muito simpático que não reconheci, a princípio. Como eu estava com um DVD do Made In Brazil nas mãos e o Magrão perguntou apontando para a caixinha “ô Bosco, é você aqui no Jô né?” (se referindo a uma apresentação do Made no programa do Jô Soares), eu liguei a antena.

Depois, já enturmado e trocando figurinhas, fiquei sabendo que o baixinho simpático e bastante conhecedor de rock and roll, foi o baterista do (saudoso e genial) Alta Tensão, banda de heavy tradicional dos anos oitenta, oriunda de Campo Grande, e tocou no Made in Brazil (bom, quem ainda não tocou? Desconfio que até eu!!). Era nada menos que João Bosco, o piloto das baquetas no Bando do Velho Jack.

Sem hesitar, catei logo os dois álbuns disponíveis dos caras. Como Ser Feliz Ganhando Pouco que, além da sensacional faixa título, tem a divertida “Velhos e Velhas”, versões para “Cavalheiro da Lua” (Almir Sater) e “Não Fique Triste” (d’O Peso) e uma faixa escondida, onde está a cover matadora de “Casa do Rock”, da lendária Casa das Máquinas. Já o novíssimo álbum, Bicho do Mato, é um pouco (mas só um pouquinho) menos pesado e mais autoral, mas não menos delicioso. Nele está o hino (sim, não tem como classificar de outra forma) “Pedras que Rolam” que, sozinha, já vale a bolachinha. Claroq que outras pérolas valem ser citadas como “Gasolina”, “Mais Perto de Mim” e a cover (já citada) de “Bicho do Mato”.

Não reencontrei o Bosco mas consegui bater um papo virtual com o baixista e o guitarrista do Bando (Marcos Yaluzz e Fábio Terra, respectivamente) para conhecer um pouquinho mais desta moçada que faz um rock de verdade, como diria Osvaldo Vechionne.

DropMusic: A sonoridade da banda pode ser considerada “datada” pela chamada crítica especializada. Isso incomoda?
Fábio Terra:
Em absoluto, hoje em dia um crítico que tem um pensamento desse está fadado ao suicídio profissional. O som de artistas como Lenny Kravitz, Black Crowes e, até mais recente, como Ben Harper tem forte influência dos anos 70. Eles são “datados”? Não. Como somos assumidamente uma banda de classic rock ou 70’s rock ou até mesmo jam band, quando algum crítico faz essa “observação” super moderna, na verdade ele acerta em cheio o nosso estilo e como nós somos.
Marcos Yallouz:
Não. Ela é datada mesmo. Isso é um fato. O que interessa é que há muita gente que gosta dessa sonoridade, inclusive nós! Isso é o que importa.

DM: Qual a opinião da banda sobre o direcionamento atual tomado pela indústria fonográfica (onda emo, axé)?
FT:
Não sei se ainda existe uma indústria fonográfica tão forte assim. Bandas ou até artistas que são manipulados pela indústria são efêmeros e quase sempre caem no esquecimento rapidamente. Não posso falar sobre axé, pois como é um estilo que realmente não faz a minha cabeça, não saberia citar o que está acontecendo. Sei de coisas que estão acontecendo como Ivete Sangalo e Claudia Leite que eram de bandas que agitavam festas de carnaval e que agora têm uma carreira solo, mas acredito que o Axé Music já esteja totalmente incorporado ao dia-a-dia cultural do brasileiro e mesmo quem mora em outros estados sempre irá ter público no nordeste, em especial na Bahia. Quanto ao Emo eu acho até legal porquê é uma vertente do rock. O cara pode começar escutando My Chemical Romance, Panic At Disco e conhecer outras bandas, o que se chama hoje de Emo é uma abreviatura de Emotional Hardcore e que começou com bandas como Bad Religion, mas depois trocaram o rótulo para bandas mais pop do que hardcore. Para mim, o Emo de hoje e como o Gotic Rock dos anos 80 ou gótico aqui no Brasil. Não escuto, mas nada contra. 
MY: O velho consumismo descartável. A moda é criar moda e depois descartá-la substituindo com outra moda. Mas, é difícil imaginar que isso não aconteça.

DM: As influências do som do Bando são claras. Anos 70 na cabeça, com muito Tutti Frutti, Peso, Made In Brazil e Casa das Máquinas. Vocês acreditam que nada de bom foi feito depois disto? (exemplo de grupos dos anos 80, 90 e 2000 em diante).
FT:
 Seria uma estupidez dizer que nada de bom foi feito depois dos anos 70, e também hipocrisia dizer que só as bandas dos anos 70 eram boas. Grandes coisas foram feitas depois. Apenas a produção dos anos 80 é que foi um lixo, ou melhor, digo os timbres e os sons captados. Foi o começo do uso de nova tecnologia, então coisas pavorosas ocorreram, como todos os timbres de bateria dos anos 80 que são detestáveis, sem falar obviamente do surgimento da New Wave, tão empolgante quanto um xarope de chuchu. Mas tivemos o Punk Rock e o Hard Rock nos anos 80, nos 90 tivemos o Grunge e, agora, estamos vivendo um momento de misturas sonoras dos anos 70 com 80. Gosto do U2, The Cult, The Cure e Duran Duran por exemplo, que são bandas da década de 80. Da década de 90, gosto do RHCP, Soundgarden, Gov’t Mule, Black Crowes, Ben Harper, Lenny Kravitz. 
MY: Eu acho que surgiram muitas coisas boas até para nos influenciar. Bandas como  Black Crowes e The Cult são exemplos disso. Eu gosto do rock dos anos 80 também. Apenas não me influencia musicalmente, mas gosto e respeito todo o movimento de rock 80 nacional.

DM: Mato Grosso do Sul não é, exatamente, uma cidade onde o rock tem uma penetração relevante (eu acho!!). É difícil estar longe demais das capitais?
FT:
É sim no que diz respeito aos contatos, shows e evidentemente à sobrevivência. Digamos que manter uma banda de rock em um estado que tem como sua trilha sonora o sertanejo por mais de 12 anos significa que você tem que ser durão.
MY: Esse lance de “penetração relevante” é por sua conta! (hehehe). É difícil sim. Torna mais difícil conseguir shows, pois não conseguimos preços competitivos com bandas locais ou próximas. E para ficar conhecido, precisamos efetivamente tocar muito.

DM: Todo roqueiro tem um lado obscuro no que se refere a preferência musical (exemplo, eu adoro Odair José). O que vocês ouvem escondidos no quarto?
FT:
Cara não é fora do rock porque ela tem uma banda de rock também, mas eu sou fã confesso da Linsey Lohan. (risos)
MY: Eu ouço um pouco de MPB e jazz também.

DM: O bando grava de forma independente mas se conseguisse um (bom) contrato com uma grande gravadora e o produtor resolvesse “polir” o som, aproximando a sonoridade do grupo às bandas que estão na moda, qual seria a reação? (para ter a idéia da situação, ouça A Minha Renda, da Plebe Rude).
FT:
Se um grande gravadora nos contratasse seria por causa do som. Então eu acho que não haveria espaço para se polir o som, acho até o contrário forçaríamos ainda mais uma sonoridade vintage explorando as condições favoráveis que são de se esperar de uma grande gravadora. Veja que já temos uma carreira de 12 anos com quatro discos. Uma gravadora ganharia de cara os nossos fãs, não é mesmo? Mas acho isso impossível e utópico.
MY: Acho que é um caso muuuuito específico. Há muitas variáveis no meio. Com certeza temos muito a ser polidos sem perder a essência rock que queremos ter. Mas, isso varia muito. Se o polimento fosse para algo que não nos agrada, espanaríamos antes.

DM: Recentemente, o Brasil perdeu um dos seus maiores músicos, o guitarrista Wander Taffo. Assim como ele, outros grandes instrumentistas brasileiros têm pouco ou nenhum espaço na mídia. Com raras exceções, é possível dizer que a rádio deixou de ser representativa como era há vinte anos?
FT:
Os instrumentistas não têm um espaço na mídia porque se preocupam demais com uma coisa: música. Já quem não toca pode se preocupar com roupas e cabelos e como vai falar na MTV da cidade, ou como vai armar a próxima coisa, ou seja, o marketing é muito importante seja para uma banda, artista ou instrumentista. Wander Taffo era um abnegado do instrumento e da melhoria dos músicos no Brasil. Montou uma das maiores escolas da América Latina e fez parte de várias bandas importantes. Seu último projeto que estava para ser realizado agora em julho era o retorno da banda Taffo. Já falando sobre representatividade das rádios, basta sintonizar e ouvir, enquanto existir o “jabá”, a grana por fora, o “faz-me rir” as rádios continuarão tocando quem pagar mais. Existe uma regra no show business: se você somente tocar em rádios ninguém saberá qual é o rosto da música. Raras “bizonhas” exceções que resolvem fazer o lixo dos lixos musicais aparecerem na mídia. Exemplo, Tiririca com a piada musical Florentina, e esses funks cariocas com alto teor literário, que volta e meia os DJs insistem em colocar. 
MY: O rádio ajuda a divulgar. É um meio de comunicação de massa, não tem duvida. Não adianta atingir apenas quem gosta ou procura. Para um sucesso verdadeiro é preciso atingir também quem ouve rádio e aceita e gosta do que estiver tocando sem pensar. Essa massa é muito significativa para o consumo. Não tem como ter sucesso e reconhecimento se você não for amplamente conhecido.

DM: A energia no palco é uma marca do Bando. Algum plano de gravar um ao vivo?
FT
: Claro que existe, mas ainda é um projeto caro que colocaremos em prática em uma próxima etapa. 
MY: Claro, sempre. Falta apena$ viabilizar alguma$ coisa$! (risos)

DM: Que convidado(s) o Bando gostaria de ter em seu próximo CD? (vale expressar apenas o desejo).
FT:
 No primeiro CD não tivemos participações. No segundo Paulo Carvalho, da banda Velhas Virgens, deu as caras no estúdio além de vários músicos próximos do Bando. No nosso terceiro CD foi a vez de Paulo Simões, um dos compositores de Trem do Pantanal e um de nosso heróis. No mais recente disco Big Gilson deu uma envenenada com seu slide. Para o próximo não sabemos quem vamos chamar, mas é certeza que alguém deva gravar. Até porque, pouca gente deve saber disso, temos grandes fãs músicos, o que é um privilégio para nós. Assim como nós gravamos nos discos deles, vamos fazer com que eles trabalhem no nossos também. (risos). Quanto ao desejo, cara, eu gostaria que o Warren Haynes (Allman Brothers, Gov’t Mule) gravasse com a gente, mas isso é sonho, não é?. 
MY: O Oswaldo do Made já é uma divida antiga de participação. Seria uma boa.

DM: Aparentemente, rola um clima bem cordial entre os membros. Mas há momentos em que o bicho pega?
FT:
Discussões normais sobre que musica ou arranjo tocar, essas coisas de sempre.
MY: Nunca aconteceu porrada (mas quase)! Mas, atrito tem sempre. É normal em 13 anos de convívio.

DM: Para fechar, planos para o futuro, turnê em andamento, recado para os fãs, carreira solo. O que vem por aí?
Fábio Terra:
Divulgar o CD Bicho do Mato e tocar em mais capitais levando o som da banda para mais pessoas. Recados para os fãs: compareçam aos nossos shows, acessem o nosso site www.obandodovelhojack.com.br, comprem os nossos CDs e ajudem a banda a continuar na estrada (risos). Quanto à carreira solo, bom, eu não tenho tempo. Tenho um projeto paralelo que se chama Fábio Corvo e Os Malditos do Cerrado, onde toco folk rock, mas que está totalmente parado em virtude do Bando, obviamente. Já o que vem vindo por aí são: dois CDs novos, uma coletânea e um CD de inéditas. Rockabraço do Fábio Terra (Corvo), guitarrista d’O Bando do Velho Jack.
Marcos Yallouz: Espero que muitos CDs, DVDs e shows apesar da dificuldade. O resto é imprevisível.

Agradecimento especial a Vanessa Amin, que tornou possível a entrevista e um grande abraço ao João Bosco, um verdadeiro roqueiro da pesada.

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