O iPod da Maria Rita

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divulgaçãoA ética foi usada por boa parte das redações como o motivador para a devolução do aparelhinho. Tudo muito lindo e honesto, afinal os leitores poderiam achar que uma crítica favorável a cantora só foi feita por causa do mimo. Besteira total, as redações das grandes publicações vivem recebendo presentes de todos os tipos, bebidas, chaveiros, bonés, ingressos para shows, teatro, cinema, enfim, um mundo de ´brindes´ que se fossem realmente levados em conta se tornaria em um escândalo maior do que o tal iPod. Então por que a devolução do aparelinho? Talvez por ter sido um presente um pouco mais caro e sem a menor necessidade, já que o objeto de trabalho, ou seja o CD e o DVD, também foram entregues no mesmo pacote. Ok, tudo muito bonito, os jornais e revistas mostraram-se totalmente independentes das grandes gravadoras certo? Não é bem assim...
 
Então vejamos. Dê uma olhada no seu jornal favorito, pode ser Folha, Estado, JB, O Globo, qualquer um. Vá para o caderno cultural, ou de variedades, sei lá o nome. Não precisa nem ler todos os artigos, vá diretamente para o final de cada matéria. Foi? Em alguma você encontrará algo assim: Fulano viajou a convite da gravadora tal. Fulano viajou a convite da empresa tal. E aí? Cadê a tal ética do iPod? Sumiu. Aí temos uma nova pergunta: será que as empresas não obrigaram o jornalista a devolver o brinquedinho só porque o beneficiado seria única e exclusivamente ele e não o jornal como um todo? Afinal quando uma empresa convida determinado jornalista para viajar quem sai ganhando é a empresa que vai ter acesso a uma matéria, diretamente na fonte, e não vai gastar um centavo para mandar seu funcionário para um outro país, sem custos com avião, hotel, nem nada.
 
A Veja realmente abriu, como foi possível notar ontem, durante um debate na Universidade Metodista, uma discussão até então largada de lado. Até então ninguém dava muita bola para as relações perigosas, roubando o título de um artigo de Pedro Alexandre Sanches, entre as redações e as grandes gravadoras, grandes estúdios e empresas que, por um motivo ou outro, teriam interesse em um artigo publicado. Afinal qual a real motivação para uma TIM bancar a viagem de jornalistas da Folha de São Paulo, para diversos paises, para comentarem depois sobre os artistas que irão se apresentar no TIM Festival. Necessidade real, não existe nenhuma, afinal os artigos poderiam ter sido escritos aqui mesmo, sem que o repórter tirasse a bunda da cadeira e mesmo uma entrevista poderia ser feita por telefone ou até mesmo e-mail. Ético não?
 
Como ficam os leitores? Com cara de bobos achando que sua publicação favorita tem independência, e dinheiro, suficiente para bancar viagens atrás de viagens, sempre em busca da melhor matéria. Qualquer semelhança com o jabá nas rádios não é mera coincidência. Como consolo, fiquem sabendo, que isso não é exclusividade da imprensa brasileira, mas de todo o mundo que na ânsia de cortar custos coloca de lado qualquer tipo de pudor.
 
Saídas? Sim, existem, principalmente na imprensa on-line, que ainda não foi contaminada pelos mesmos vícios da imprensa tradicional. Mas isso só não aconteceu ainda porque as grandes empresas não acham que o jornalismo feito para a internet tão relevante quanto o de uma Folha de São Paulo. Com o tempo isso também vai mudar...
 
Se eu recebi o tal do iPod? Que perguntinha besta não? Mas se tivesse recebido não devolveria, afinal não seria o brinquedo da Apple que me faria mudar de opinião sobre o disco da Maria Rita, ou de qualquer outro artista.

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