O iPod da Maria Rita
Written by Valdir Antonelli Friday, 21 October 2005 20:06
A
ética foi usada por boa parte das redações como o motivador para a
devolução do aparelhinho. Tudo muito lindo e honesto, afinal os
leitores poderiam achar que uma crítica favorável a cantora só foi
feita por causa do mimo. Besteira total, as redações das grandes
publicações vivem recebendo presentes de todos os tipos, bebidas,
chaveiros, bonés, ingressos para shows, teatro, cinema, enfim, um mundo
de ´brindes´ que se fossem realmente levados em conta se tornaria em um
escândalo maior do que o tal iPod. Então por que a devolução do
aparelinho? Talvez por ter sido um presente um pouco mais caro e sem a
menor necessidade, já que o objeto de trabalho, ou seja o CD e o DVD,
também foram entregues no mesmo pacote. Ok, tudo muito bonito, os
jornais e revistas mostraram-se totalmente independentes das grandes
gravadoras certo? Não é bem assim...Então
vejamos. Dê uma olhada no seu jornal favorito, pode ser Folha, Estado,
JB, O Globo, qualquer um. Vá para o caderno cultural, ou de variedades,
sei lá o nome. Não precisa nem ler todos os artigos, vá diretamente
para o final de cada matéria. Foi? Em alguma você encontrará algo
assim: Fulano viajou a convite da gravadora tal. Fulano viajou a
convite da empresa tal. E aí? Cadê a tal ética do iPod? Sumiu. Aí temos
uma nova pergunta: será que as empresas não obrigaram o jornalista a
devolver o brinquedinho só porque o beneficiado seria única e
exclusivamente ele e não o jornal como um todo? Afinal quando uma
empresa convida determinado jornalista para viajar quem sai ganhando é
a empresa que vai ter acesso a uma matéria, diretamente na fonte, e não
vai gastar um centavo para mandar seu funcionário para um outro país,
sem custos com avião, hotel, nem nada.
A
Veja realmente abriu, como foi possível notar ontem, durante um debate
na Universidade Metodista, uma discussão até então largada de lado. Até
então ninguém dava muita bola para as relações perigosas, roubando o
título de um artigo de Pedro Alexandre Sanches, entre as redações e as
grandes gravadoras, grandes estúdios e empresas que, por um motivo ou
outro, teriam interesse em um artigo publicado. Afinal qual a real
motivação para uma TIM bancar a viagem de jornalistas da Folha de São
Paulo, para diversos paises, para comentarem depois sobre os artistas
que irão se apresentar no TIM Festival. Necessidade real, não existe
nenhuma, afinal os artigos poderiam ter sido escritos aqui mesmo, sem
que o repórter tirasse a bunda da cadeira e mesmo uma entrevista
poderia ser feita por telefone ou até mesmo e-mail. Ético não?
Como
ficam os leitores? Com cara de bobos achando que sua publicação
favorita tem independência, e dinheiro, suficiente para bancar viagens
atrás de viagens, sempre em busca da melhor matéria. Qualquer
semelhança com o jabá nas rádios não é mera coincidência. Como consolo,
fiquem sabendo, que isso não é exclusividade da imprensa brasileira,
mas de todo o mundo que na ânsia de cortar custos coloca de lado
qualquer tipo de pudor.
Saídas?
Sim, existem, principalmente na imprensa on-line, que ainda não foi
contaminada pelos mesmos vícios da imprensa tradicional. Mas isso só
não aconteceu ainda porque as grandes empresas não acham que o
jornalismo feito para a internet tão relevante quanto o de uma Folha de
São Paulo. Com o tempo isso também vai mudar...
Se
eu recebi o tal do iPod? Que perguntinha besta não? Mas se tivesse
recebido não devolveria, afinal não seria o brinquedo da Apple que me
faria mudar de opinião sobre o disco da Maria Rita, ou de qualquer
outro artista.

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