Censura ou defesa das crianças??

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Todo o problema começou quando um deputado, Reinaldo Santos e Silva, do PTB gaúcho, entrou com pedido na Procuradoria Geral da  República para a retirada da canção do mercado. O deputado alegou que o grupo fazia ´uma banalização do incesto, da pedofilia e da violência sexual contra crianças e adolescentes´. O deputado não se importou em consultar a banda para ver se o que ele estava alegando era real ou fruto de sua imaginação pervertida. No embalo algumas ONG´s de defesa da criança também embarcaram no mesmo barco.

A briga pode até ser chamada de justa, afinal a letra faz realmente alusão a um relacionamente entre um adulto e uma criança, mas será que ela é tão grave assim? Basta lembrarmos de ´sucessos´ como Dako no Salão ou Abre as Pernas, Mete a Língua de Tati Quebra-Barraco, de vários sucessos do É o Tchan e outras canções menos conhecidas. Não dá para entender por que todo esse fuzuê em cima de uma canção do Bidê ou Balde e nada, absolutamente nada, em relação a outras canções muito mais ofensivas, lembrando sexo explícito, e que contam com a conivência dos próprios pais. Onde estão estas mesmas ONG´s que lutaram contra o Bidê ou Balde nestes casos?

Creio que o problema foi a divulgação pela MTV, que, apesar de não ser sinônimo de qualidade, não se sujeitou às letras rasteiras de MC´s Serginhos e Cia. Como a emissora tem uma boa audiência entre o público jovem, foi aberta uma porta para que se criasse um problema muito maior do que a letra da canção pode ser. Só isso explica porque o nobre deputado, que também quer impedir que os donos de animais dêem nomes humanos a eles, pastor evangélico e claramente disposto à lutar pela sua reeleição, tenha entrado nessa luta. Mas é triste ver organizações sérias aproveitando a brecha apenas para ter um pouco mais de publicidade, afinal deixar uma menina dançar em cima de uma garrafa pode, mas falar sobre incesto é crime.

Isso nos leva a outro ponto, como separar a ficção da realidade? Como o próprio pessoal do Bidê ou Balde disse, em relação ao caso, eles apenas comentaram sobre algo que acontece na sociedade - em uma nota que circula pela net, a letra foi feita para um amigo da banda, separado e que foi impedido de ver a própria filha -, mas pelo jeito é mais fácil tentar jogar o assunto para debaixo do tapete do que discuti-lo de forma real. Todo mundo sabe que pedofilia é crime, mas esse crime é realmente discutido por nossos legisladores ou eles apenas aproveitam uma brechinha para se auto-promoverem?

Essa postura pseudo-moralista não passa de uma tentativa de aparecer na mídia à custa dos outros, novamente cito o caso de canções muito mais depreciativas e pornográficas que qualquer canção do Bidê ou Balde, como eles têm a benção das grandes redes de TV ninguém abre a boca - lembram do MC Serginho e sua Lacraia em todos os programas de auditório?. Afinal o que é mais pornográfico? Deixar seu filho, 8, 9 anos assistir uma pessoa simulando sexo em pleno domingo a tarde no Faustão ou tentar encontrar incesto em uma letra de música?

Claro que faltou um certo tato ao grupo gaúcho, que resolveu mudar a letra original para o especial da MTV, deixando-a um tantinho mais provocativa, mas onde fica o direito de um artistas retratar a realidade do nosso cotidiano. Não vai ser uma música que vai causar mais casos de abuso contra crianças no Brasil, assim como não vai ser a proibição desta canção que irá diminuir esse número. Mas imaginem quando este deputado resolver ler o romance Lolita, de Nabokov, será que ele também vai tentar proibí-lo país? Sugerir que existe um determinado crime não é comete-lo, se fosse assim o Jornal Nacional também teria que sair do ar.

Tomo a liberdade de repetir aqui o que o desembargador Luis Felipe Brasil Santos disse ao revelar seu voto no caso da canção:

"Essa música, no entanto, sugere pedofilia e sugere relacionamento incestuoso. Mas não estimula pedófilos ou anormais a prosseguirem na sua senda bestial. Nem tem o condão de transformar tais fatos que ferem a sensibilidade de pessoas normais em fatos normais ou capazes de serem aceitos pela sociedade.

É oportuna, no entanto, essa discussão.

Vivemos uma época em que é proibido proibir, em que tudo está sendo relativizado, onde a imposição de limites é questionada, onde a licenciosidade grassa até mesmo em programas televisivos infantis, onde vulgaridade está presente sempre, onde pornografia, a promiscuidade e a pederastia são banalizadas e não pedem licença para entrar nos lares e nas escolas.

Não é apenas essa música que choca, até por que ela apenas mostra o sentimento de um pedófilo e de um pai que nutre uma atração doentia pela filha. Peço vênia para lembrar os colegas outros exemplos de péssimo gosto, que tocam nas rádios e em programas de televisão, nos mais diversos horários, e estão gravados em CDs à disposição do público consumidor.

São músicas que explicitam e estimulam pornografia, violência sexual, pedofilia, práticas criminosas, uso de drogas e até discriminação racial. Mas não vejo providência alguma ser tomada por qualquer associação. E também não chamaram a atenção do Ministério Público. Mas são músicas que são ouvidas por adolescentes e até por crianças.

Destaco para exemplificar, uma dúzia de letras de péssimo gosto, indicando também o nome ´artista´ ou da ´banda´ e o nome da ´música´, com grifo de algumas partes que ferem a sensibilidade e são capazes de constranger qualquer pessoa desavisada, como segue:

1) Mc Serginho: Vai Serginho.
2) Tati Quebra Barraco: Espanhola.
3) Mc´s Vina E Fandangos: Festa Da Paula.
4) Bonde do Tigrão: Caçador De Tchutchuquinha.
5) Menor do Chapa: Bonde dos 12 Mola.
6) Menor do Chapa: Do Boldinho.
 7) Tati Quebra Barraco: Abre As Pernas, Mete a Língua.
8) Tati Quebra Barraco: Ardendo Assopra.
9) Furacão 2000: Punheta Arretada.
10) Furacão 2000: Quer Bolete?.
11) Planet Hemp : Queimando Tudo.
12) Mc Frank: Pra Gatinhas.

Esclareço que estou retirando do voto o inteiro teor das letras dessas músicas, dada a situação de constrangimento que provocam a qualquer pessoa de mediana sensibilidade. Esclareço, também, que no julgamento fiz a leitura das letras.

Como se vê, essa músicas são também de péssimo gosto. E não apenas sugerem pedofilia, vista sob a ótica doentia de um pedófilo, mas constituem verdadeiras aulas de pornografia explícita e que estão ao inteiro dispor de crianças e adolescentes. E nessas músicas as crianças e os adolescentes não são meros alvos de um desejo bestial, mas atores de um festival de pornografia. Mas essas ‘obras de arte’ permanecem intocadas, sendo exibidas publicamente, tocadas em rádio e em programas de televisão...

Não se trata de consentir que a música E por que não? continue a destilar a sua estupidez, mas por reconhecer que retirá-la do mercado, em sede de antecipação de tutela não trará qualquer resultado útil, nem impedirá que continue a ser ouvida, como vem sendo ouvida há cinco anos... Talvez venha apenas a valorizar essa música e chamar a atenção de quem jamais pretendia ouvi-la."

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