Marco Ribeiro
Tenho
consciência que sou um cara meio sombrio e desesperançado mas pioro
muito quando chega o fim do ano. Sabe, essa coisa de natal,
presentinhos, uns coitados vestidos de papai Noel, Simone cantando
“Então é Natal” em tudo que é loja, boteco, padaria e até puteiro, me
deixam meio pra baixo. Na verdade, puto mesmo.
No diálogo inicial do filme Alta Fidelidade, o protagonista Rob Gordon lançou um enigma: o que veio primeiro, a música ou a miséria?E continuou: “as pessoas se preocupam com crianças brincando com armas, vendo vídeos violentos, como se a cultura da violência fosse consumi-las. Ninguém se preocupa se escutam milhares de canções sobre sofrimentos, dor, miséria e perda. Eu ouvia música pop porque era infeliz ou era infeliz porque ouvia música pop?”.
Outro dia, o camarada Wilson de Souza Junior, militante radical da causa gay, meio skinhead, meio Liza Minelli, me chamou atenção para um ponto que eu tenho consciência mas que estava adormecido em minha memória latino-machista: o que seria da música pop se os gays não existissem?
Depois
de mais de cinco mil e-mails, duzentas e vinte e sete cartas, vinte
telegramas, dois sinais de fumaça e quatro mensagens vindas de pombos
correio, retomo a série, interrompida há quase um ano, dos dez discos
mais importantes da minha vida.
Continuando a saga que tenho enfrentado para aceitar que o tempo não para e queimando a língua sobre um comentário específico que fiz no primeiro texto, resolvi encarar o show de Caetano Veloso, da turnê que divulga o novo disco, Cê, realizado em Manaus, no dia cinco de maio.
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