A Censura do Século 21 ou o Politicamente Correto

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Duas coisas me chamaram atenção em um das revistas semanais que eu assino. A primeira foi a celeuma causada por um clipe interpretado como racista que, ironicamente, foi gravado por um artista negro. A segunda foi a entrevista com um psiquiatra da Nova Zelândia em que ele afirma que “o bullying faz parte do nosso comportamento e que a melhor estratégia é ensinar as crianças a se defender em vez de apenas punir os agressores”.
 
Vamos por partes. O cantor do polêmico clipe é Alexandre Pires, ex-integrante do grupo de pagode SPC (Só Pra Contrariar). A música (?) chama-se Kongo e tem a participação de um tal funkeiro Mr. Catra e de um jogador de futebol chamado Neymar. Antes de qualquer coisa, quero dizer que odeio pagode, funk (não o James Brown mas os tais cariocas) e futebol. Dito isso, fiquei muito surpreso com a imbecilidade no contexto geral. Não resta dúvida que a música e o clipe são uma M-E-R-D-A mas daí chamar de racista é um exagero absurdo.

Já fui muito criticado porque dizia (e digo) que a censura das décadas de 60 e 70 teve o seu lado bom. Mesmo com os censores mutilando parte das obras lançadas na época – seja cinema, música, literatura ou televisão – muita coisa de qualidade ficou para história da arte brasileira, não importa o segmento. A censura acabou mas temos hoje algo chamado POLITICAMENTE CORRETO que é, na verdade, uma censura hipócrita. Daquele tipo “pode lançar seu trabalho mas se eu me sentir ofendido, vou te processar”. Daí os artistas tem que se desdobrar para não ofender homossexuais, negros, mulheres, religiosos, doentes mentais, deficientes físicos e etc. É CLARO que não defendo a ofensa mas o negócio já está beirando a paranoia. A interpretação livre dá margem para os “ofendidos” entrarem com suas reclamações a ações judiciais contra qualquer um, artista ou não, que na sua interpretação, possa ter denegrido a sua imagem.
 

Chegou-se ao ponto de considerarem Monteiro Lobato racista. Fico pensando que se Chico Anísio iniciasse sua carreira hoje, ele não iria poder criar a maior parte de seus personagens.
 

Levando para o campo musical, músicas como UPA NEGUINHO (Edu Lobo), NEGA DE OBALUAÊ (Wando) ou até mesmo coisas mais recentes (e não tão boas) como LÁ VEM O NEGÃO (Cravo e Canela) poderiam ser alvo dos paranoicos de plantão. Dá pra imaginar como seriam adaptadas para os “novos tempos” de politicamente correto?
 
“Upa pequeno afrodescendente na estrada
Upa pra lá e pra cá
Vigi que coisa mais linda
Upa pequeno afrodescendente começando a andar”
 
“Mulher afrodescendente de Obaluaê
Essa mulher afrodescendente fez feitiço
Entregou meu nome ao santo
E agora como faço
Sem essa mulher afrodescendente malandro
Sei que não posso viver”
 
“Lá vem o grande afrodescendente
Cheio de paixão
Te catá, te catá, te catá
Querendo ganhar todas menininhas
Nem corôa ele perdoa não
Fungou no cangote
Da linda morena
Te catá, te catá, te catá
Loirinha com a fungada do grande afrodescendente
É um problema”
 
Outro exemplo seria os homossexuais. Muito se fala em intolerância, de preconceito, e tal. Heterossexual não pode falar palavras como “bicha”, “viado”, “boneca”, “frufru”, etc, apesar dos próprios homossexuais as utilizarem entre si.

Na música popular, o ROBOCOP GAY, dos Mamonas Assassinas, seria algo como ROBOCOP DE COMPORTAMENTO SEXUAL ALTERNATIVO.
 
 
Bom, e por aí vai. O preconceito existe mas a paranoia está ganhando terreno a largos passos.

Falando em paranoia, eis que entra o tal do Bullying. O que na minha época era algo que ajudava a gurizada a se fortalecer para a vida adulta, hoje é motivo para polêmicas, ações judiciais, prisões, traumas psicológicos, etc. Claro que não concordo com extremos, em que pessoas foram muito machucadas ou até mortas em brincadeiras idiotas. Mas as “ofensas” como gordão, megrela, narigudo, CDF e outros adjetivos muito utilizados nas escolas não são absurdos a ponto de traumatizar de forma irreversível. Até mesmo as brincadeiras de puxar cueca, levantar saia e colar papel na costa com frases engraçadas, tão comuns nas décadas passadas, hoje são vistas como intoleráveis.
 

O que eu vejo são crianças hiper protegidas que vão crescer despreparadas para o mundo real. Sim, porque o mundo real não é brincadeira. O menino que hoje chega em casa chorando e conta pros pais foi humilhado na escola será o futuro bunda mole que, quando crescer, vai correndo no RH da empresa onde trabalha para denunciar o colega que achou sua camiseta feia ou que vai se afastar para tratamento psicológico quando levar bronca do chefe. É isso que a atual geração está se transformando. Um bando de bebês chorões que vão penar muito quando seus pais ultra-mega-hiper-super protetores forem comer grama pela raiz na terra dos pés juntos.
 

Não tenho e nem quero filhos mas tenho certeza que eu seria um ótimo pai pelo simples fato de não esconder do meu(s) filho(s) o mundo real que eles iriam enfrentar quando adultos.
 
Esse desabafo não é pra dar em nada. Pode até ofender algumas pessoas. Paciência. Eu ainda teimo em utilizar minha liberdade de falar. Ainda não cheguei (e espero não chegar) ao ponto de ser moldado para ser aceito na sociedade e nem me reconhecer quando olhar no espelho. Os comportamentos e ideologias padronizadas estão, pouco a pouco, descaracterizando boa parte da sociedade dita civilizada. Aí é se preparar para, em todo lugar que você for, encontrar sempre as mesmas pessoas, com rostos diferentes mas com máscaras iguais. E ainda falando no gerúndio

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