Beatles´70 - Releituras geniais

Attention: open in a new window. PrintE-mail
Quando eu era mais jovem, bem mais jovem do que hoje, cultivava os Beatles como uma espécie de religião. Ouvia a banda sem parar, de manhã, de tarde e de noite. Quando acordava de madrugada, preocupado com a prova do dia seguinte e a com loirinha que sentava na minha frente, também escutava os rapazes de Liverpool. Eu chegava pensar que seria assim até quando eu ficasse mais velho, já sem cabelo, lá pelos sessenta e quatro.

 
Mas certa vez, ouvindo um programa de rádio, tocou a versão de Joe Cocker para With A Little Help From My Friends. Senti o pecado dominando meu rechonchudo corpo. Os cabelinhos do braço e da nuca se arrepiaram, senti uma contração na barriga e uma vontade louca de me contorcer. Era o diabo, só podia ser. Fiquei com aquilo na cabeça. À noite, fiz minha habitual oração para o Jesus cabeludo que parecia George Harrison na fase All Things Must Pass.

 
- Jesus, sei que pela hierarquia celeste, tu estás abaixo dos Beatles. Mas, mesmo assim, peço tua ajuda e não permita que eu sinta mais nada quando ouvir a versão do Joe Cocker. Eu sei que é pecado. Mas eu estava despreparado naquele momento. Me pegou de surpresa. Não deixe que Paul saiba disso. Nunca (já com lágrimas nos olhos), nunca mais vou gostar de nenhuma outra versão das músicas dos Beatles. Só as originais. Agora e para sempre. Amém.

 
Antes de dormir, paguei minha penitência: repeti em voz alta, cem vezes, a farase: COM O RINGO É MELHOR, COM O RINGO É MELHOR, de joelhos e segurando duas caixas cheias de fitas cassetes, uma em cada mão. Adormeci cansado mas ainda pensando na levada soul de Joe Cocker para a faixa dois do disco histórico e sagrado Sgt. Pepper´s Lonely Heart Club Band.

 
O tempo passa e ficamos mais sábios (ou mais burros, dependendo do ponto de vista). Hoje, depois de relaxar em relação a uma porção de coisas, posso ouvir sem medo de ir para o inferno (mesmo porque eu já tenho uma passagem só de ida pra lá), as versões de canções que considero os meus salmos. 

 
Depois do impacto de Joe Cocker, comecei a prestar atenção nas releituras que outros artistas fizeram para o repertório dos Beatles. Muitas são muito boas mas poucas barram as originais. Mas aprecio muito a criatividade de certos artistas. Por exemplo, ouvir o álbum Sgt.Pepper´s pelo grupo americano Big Daddy é muito divertido, principalmente para quem adora desvendar citações. Quando o cara só copia, não tem a mínima graça. Prefiro ouvir os originais.

 
Digo tudo isso para falar na surpresa que tive ao ouvir o CD Beatles ´70 Vol1, lançado pelo selo Discobertas em 2010, um dos geniais projetos do amigo virtual Marcelo Fróes, que consegue reunir, numa única bolachinha, as melhores versões das canções do álbum Let It Be que já se teve notícia em toda a história deste país. Sim, porque todos os interpretes são brasileiros (menos Zé Ramalho, que até hoje eu acho que é alienígena).

 
Não é a primeira empreitada nesta linha. O mesmo projeto já havia abordado diferentes fases dos cabeludos ingleses, sempre com bandas e artistas nascidos no país de Dilma e Lula. Mas neste, em especial, senti o mesmo arrepio quando, há mais de trinta anos, ouvi Joe Cocker no meu surrado radinho de pilha.

 
É utilizada exatamente da mesa sequencia de faixas do disco original. Com exceção das canções interpretadas por Zé Ramalho (ao contrário do que possa parecer, eu adoro o paraibano), todas têm um toque pessoal que faz a uma diferença enorme, renovando as canções de Lennon & McCartney, que passam a ter uma “nova cara”, sem perder a essência.

 
O disco todo é maravilhoso mas meus olhos só se encheram de lágrimas (sim, em se tratando de Beatles, sou chorão mesmo) quando ouvi Dig a Pony, com Dr. Sin que, de lambuja, incluiu o riff de abertura usado em With a Little Help de Joe Cocker, I Me Mine, que virou uma espécie de tango-jazz-rock nas mãos do Profiterolis, a vinheta Dig It, totalmente espacial com Astonauta Pinguim, Let It Be, com cheirinho de rock rural na levada de Sá & Guarabira, a tradicional Maggie Mae, canção sobre uma puta querida de Liverpool, que no álbum original é só uma vinheta mas que aqui virou uma canção inteira e divertida com Marcio Biaso.

 
A cereja do bolo, em minha humilde opinião de beatlemaniaco experiente (que deve ser considerada senão eu saio na porrada) é I´ve Got A Feeling, com Tinta Preta (nenhuma relação com a quase homônima banda de forró), que misturou Beatles, Rolling Stones e, principalmente The Who. Ficou inacreditável de tão boa. 

 
O rockabilly que virou One After 909, com Big Trep,  também ficou genial. Stray Cats não faria melhor. Até a original meia insossa For You Blue (perdão George, perdão), que tinha uma levada legalzinha com o slide guitar de John Lennon, virou um bluesão de responsa a cargo da dupla Rodrigo “barão” Santos e Marília Bessy. Get Back com Cassia Eller e Zélia Ducan, é outra que virou um blues de raiz, que deve ter aberto um sorrido em Robert Johnson, lá nas dimensões infernais. 

 
O extra, com Don´t Let Me Down, que não consta no disco original, virou um reggae com Planta e Raiz. EU gostei muito, considerando o fato de eu detestar reggae.

 
No fim das contas, penso que tem tantas coisas neste país me envergonham que prefiro usar minha cidadania lusitana em várias ocasiões. Mas, ouvindo (e vendo) o talento de músicos como os reunidos por Marcelo Fróes, que conseguiram renovar e até melhorar obras de arte quase definitivas como as canções da banda mais influente de todos os tempos, dá um orgulho danado de ser brasileiro. 

Facebook

AGENDA

<<  April 2014  >>
 Mon  Tue  Wed  Thu  Fri  Sat  Sun 
   1  2  3  4  5  6
  7  8  910111213
14151617181920
21222324252627
282930    

NEWSLETTER

Deixe seu nome e e-mail para receber nossa newsletter.