A Decadência de Justin Bieber

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Eu sou um gênio mesmo. Com peças de alguns equipamentos antigos, uns chips importados do Japão, uma carcaça de fusca, um gerador e um relógio digital, consegui construir uma máquina do tempo. Me transportei para o ano de 2031 e como na primeira vez nem tudo é perfeito, era natural que alguma coisa desse errado nesta viagem inaugural.

Mas foi um acidente interessante.

Fui parar no nordeste, na cidade de Juazeiro do Norte. O calor estava matador – daqui a vinte anos, vai piorar muito – e eu me desesperei para voltar a minha máquina. Como eu estava meio enrolado, demorou um tempo até conseguir as coordenadas certas. Mas quando eu ia acionar o botão de partida, eis que surge a figura aí da foto. Sim, o próprio Justin Bilber, com uma garrafa de cachaça na mão e um olhar curioso.

Olhei pra ele de volta e tomei um susto.

- Justin Bilber?

- Sim, sou eu mesmo (com sotaque mezzo americano mezzo nordestino)

Nunca fui (e nunca serei) fã de garotinhos cantores como ele mas fiquei intrigado com a presença do cara lá no cafundó do judas. Disse que era um repórter de uma revista de música (só depois que descobri que não havia mais revistas no formato que conhecemos porque, simplesmente, não havia mais papel). Ele parecia interessado e concordou em conversar comigo. Fomos a casa dele (um tapiri perto de uma praia) e, regados com uma cachaça a lá Maria Louca, batemos o papo a seguir.

TV – Faz de conta que eu vi de outro planeta e não conheço sua história. Vou fazer algumas perguntas que podem parecer estranhas mas fazem parte da matéria. Você foi muito famoso quando era adolescente. O que aconteceu depois da fama?

JB – bom a fama nunca acabou. O que acabou foi o meu talento. Quer dizer, quando eu completei vinte anos, todo o planeta estava saturado de mim. Era pior que a saudosa Ivete Sangalo (que descanse em paz). Em todo o lugar estava meu rosto. A música ficou em segundo plano.

TV – (interrompendo) mas a música sempre não esteve em segundo plano?

JB – Não, eu gostava de música, de cantar. O problema é que, naquela época, a imagem era tudo e mais um pouco. Eu era jovem, bonitinho, virgem e tinha uma voz de anjo. Todo mundo me amava. Os meninos queriam ser eu, as meninas queria dar pra mim, os pedófilos queriam me comer. Eu era uma fenômeno, igual aquele jogador de futebol, o Ronaldo (que deus o tenha).

TV – Mas o que aconteceu que sua carreira acabou?

JB – Bom, quando eu completei 21 anos, meu pai deixou eu transar com uma fã. Depois dos poucos segundos de transa, ela me falou que minha carreira iria acabar mais rápido que aquela ejaculação. Fiquei com medo mas não dei muita bola naquele momento. É certo que os meus cds não vendiam muito como no início e eu resolvi mudar um pouco o estilo que as pessoas estavam acostumadas. Eu já era um rapaz, já tinha transado e havia tomado meu primeiro copo de cerveja com álcool. Quer dizer, já podia andar com minhas próprias pernas...

(neste momento, ele faz uma pausa e fica olhando para o canto da parede como se lá estivesse alguém..faz um comentário que não entendi e voltou a falar)

JB - ... encontrei uns rapazes que tinham banda e comecei a ensaiar com eles. O som era pesado, meio Green Day, aquela banda que todos os integrantes morreram em um acidente de avião. Eu comecei a escrever minhas músicas e demiti meu empresário...

TV – Então foi a mudança do som?

JB – Não, acho que tudo começou com aquela declaração que eu fiz. Você sabe, eu era um garoto e não sabia o que estava dizendo.

TV – Você poderia refrescar minha memória e relembrar da sua declaração?

JB – Bom, eu disse que não aguentava mais as pessoas me perseguindo, queria paz, queria tempo para eu conhecer meu corpo, queria aprender a satisfazer uma mulher, essas coisas.

TV – Sei, e as fãs se chatearam...

JB – Pois é. Mas eu queria minha vida de volta (ameaçando chorar).

TV – Calma. E daí, o que aconteceu?

JB – Os shows começaram a diminuir, comecei a tocar em lugares cada vez menores. Mas eu até que gostei. Foi quando eu comecei a fumar maconha e pensar na complexidade da vida. Ficava me olhando nu na frente do espelho, apalpando meus mamilos e pensando como seria se eu fosse mulher?

TV – Por que mulher?

JB – Sei lá, eu sentia desejos mas estava confuso. Queria sair daquela vida sufocante. Ninguém me entendia. Eu tive uma conversa com a Madonna antes dela morrer (que shiva a tenha). Ela me disse para viver minha vida, que eu tinha que conhecer Jesus.

TV – Sei, e você conheceu?

JB – Sim, mas não fui muito com a cara.

TV – Depois disso...

JB – eu fui para uma retiro espiritual onde aprendi a yoga e conseguia fazer sexo oral em mim mesmo. Foi uma descoberta incrível. Não precisava de ninguém para ser feliz. Fiquei mais recluso, tocando no meu estúdio, fazendo experimentações, igual aquele cara que morreu, o Prince.

TV – Lançou o novo som

JB – Sim, na mesma época em que conheci Marta, um transsexual que catava lixo em Nova York. Ele tinha uma estória de vida incrível. Saiu do Brasil, onde era famoso como um mais jovem cantor sertanejo a vender um milhão de cópias. Eu não lembro o nome artístico mas acho que tinha alguma coisa a ver com aquele falecido guitarrista mexicano. Enfim, convidei Marta para o meu estúdio e tocamos várias horas seguidas, sons experimentais, gritos, sussurros, bem a frente do nosso tempo.

TV – sei, sei...

JB – Depois das gravações, fizemos amor até amanhecer e tiramos algumas fotos nus. Foi a capa do CD Two Queens. Todo mundo detestou mas eu adorei.

(sorte dele que todo o clã Lennon já havia partido)
TV – o que aconteceu com a Marta?

JB – Me deixou depois do lançamento. Disse que voltaria para o Brasil porque o Presidente queria que ele fosse ministra de sei lá o que.

TV – Sério? Você lembra o nome do Presidente?

JB – Algo como tirica, titica ou titirica, não lembro.

TV – E você, como ficou?

JB – Triste. Não aceitei aquele adeus. Mandei todos para put keep a real  (ele quis dizer puta que o pariu, mas se enrolou) e me mudei pro Brasil. Chegando aqui, estranhei muitas coisas mas achei o povo hospitaleiro e exótico. O calor era forte mas me acostumei.

(pausa para ir ao banheiro e pegar outra garrafa de cana)

JB – Onde eu parei? Ah sim. Fui para Bahia, onde me falaram que era o local onde eu poderia expressar meu dom artístico e aprender um pouco da língua. Como me falaram que a música que se fazia por lá usava apenas letras básicas (vogais, ele quis dizer), achei que seria fácil. Gravei um single junto com Oludum e Carlos Brown (que Oxossi o guarde em bom lugar). A letra era simples mas profunda.

TV – o que dizia?

JB – Algo como Aê, ó o auê aí ó. ôôôô! E fazia o loop. Era um grito de revolta contra as coisas erradas que estavam acontecendo no mundo. Revolucionário.

TV – profundo...

JB - Pois é! Continuei minha saga, conheci pessoas interessantes, gravei com o Lobão, que acabou de lançar um som muito legal chamado Universo Tridimensional Aerodinâmico Espacial Silencioso. Você precisa ouvir. O cara tá com quase 80 anos e ainda manda muito bem.

TV – e, no fim das contas Justin. Como você veio parar aqui no interior do Ceará?
(já querendo encurtar a prosa)

JB – fui convidado para abrir o show do Falcão e gostei do lugar.

TV -  quais os planos para o futuro?

JB – bom, eu quero vencer o alcoolismo. Essa é minha prioridade. Depois voltar a gravar. Estou pensando em fazer uns covers de bandas clássicas como NX Zero, CPM22 e Restart, com uma roupagem meio acústica. Acho que vai agradar essa geração atual que é tão vazia musicalmente falando.

TV – bom, foi um prazer conversar com você, Justin. Muito Obrigado

JB – não quer mais uma cachacinha?

TV – não, obrigado

JB – já está ficando tarde. Quer pernoitar aqui? (me olhando de forma estranha)

TV – desculpe, tenho que ir.

JB – fica por favor (se aproximando de mim)

Sai correndo e me escondi perto de umas pedras. Assim que ele cansou de procurar, consegui ajustar a máquina do tempo e voltei para 2011.

Espero estar morto em 2031.
 

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