Em coma no inferno

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Neste dia comprei um tambaqui (peixe nobre da região amazônica) com complexo de superioridade. Fui pra casa da minha namorada (que come feito um passarinho) e assei o bicho. Comi tanto, mas tanto que entrei em coma por alguns minutos. Neste intervalo, vi aquelas tradicionais coisas que são vistas quando a morte está próxima. Toda minha vida se passando diante de mim em segundos. Mais adiante fiz uma viagem ao inferno, onde Satã e seus anjos me esperavam de braços abertos. Resolvi fazer um tour mesmo sentindo que minha namorada havia chamado a ambulância e tentava me ressuscitar.

O capiroto foi me mostrando os departamentos infernais. Naturalmente os que mais me interessaram foram os relacionados com a parte musical da humanidade. Conheci a produtora responsável pelos modismos que infernizam (ops) aqueles que apreciam boa música. A monstrinha, que se chama Anabel Zebu, me mostrou a estratégia. É tão simples que chega a ser risível. Basta injetar uma dose  a mais de ganância nos executivos de gravadora e  formatar as idéias na cabecinha vazia deles. Fiquei conhecendo então as origens da lambada, do pagode romântico, do sertanojo abolerado e das bandinhas de menininhos-bonitinhos-que- fazem-xixi-na-cama.

Fiquei horrorizado!

Percebendo meu pavor, Lulu (apelido carinhoso de Lúcifer) me conduziu à sala de controle. Pude ver como ele monitora todas as atividades. Impressionante. Existe um medidor que fornece a média de atividade mental de uma determinada população. Encontrado o valor, passa-se à elaboração do trambique. Vou tentar exemplificar. Um micro-chip diabólico embutido nos tubos de imagem de todas os aparelhos de TV do mundo coletam vibrações mentais dos telespectadores no momento em que estão assistindo seus programas preferidos. As ondas cerebrais são captadas e enviadas para o computador central do inferno. Enquanto  isso, o setor de desenvolvimento inicia a elaboração do novo trambique.

Vi a coisa funcionar com o Brasil. A média cerebral, coletada em todo território nacional num domingo à tarde, foi de 32 pontos (só pra ter uma referência, o mesmo período no Canadá obteve uma média de 243). Com esse valor, a equipe da Anabel cria algo que atenda a (baixa) expectativa desse universo. Neste momento nasceram Felipe Dion, Br´Oz e Luka e da mesma forma surgiram L.S Jack, Katinguelê, Molejo e Karametade.Após a (rápida) conclusão do projeto, as informações são enviadas diretamente para o cérebro de algum empresário de gravadora pelo mesmo chip da TV e pronto, a merda estava arquitetada.

Quando eu passava pelo departamento que cria as letras das bandas de axé e pagode, senti um choque no peito e voltei à consciência. Nunca mais fui o mesmo desde então. Comecei a ter um carinho excessivo pelas minhas coleções de dinossauros do rock, jazz e blues. Acordei tremendo prometendo nunca mais assistir tv, comer feito um animal e, principalmente, jogar fora aquele disco do Raul Seixas que dizia que o diabo é o pai do rock.

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