Skank, eu amava odiar

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Mas o tempo foi passando e a idade avançando. Deixei um pouco de lado os punks e thrashs da minha infância/adolescência e comecei a prestar atenção em coisas como MPB, pop, jazz e até música erudita. Mas alguns estilos eu considerava inaceitáveis por quem se dizia conhecedor de música. Um deles era o forró, mais pelo preconceito fresco do que pela música em si. Quando deixei de lado essa frescura pseudo-intelectual e comprei algumas coisas de raiz, tipo Gonzagão, Dominguinhos e Elba Ramalho (quando era feia de dar nó em tripa), fiquei muito impressionado com a musicalidade dos caras. A sanfona do velho Lua era de arrepiar. Continuo odiando o forró analfabeto (universitário o caralho) mas valorizo a fonte de tudo e até ouço aos sábados de manhã, quando faço a faxina no meu kitnet.

Outro estilo que eu passava longe era o samba e/ou pagode, principalmente quando apareceram umas bandinhas vagabundas fazendo um sonzinho frouxo. como os tais SPC, Soweto, Karametade (essa eu tenho nojo), Molejo e outras porras mais. No entanto, em minhas pesquisas musicais, descobri coisas como Originais do Samba (a banda do Mussum), Bete Carvalho, Moreira da Silva, Dicró, João Nogueira, dentre outros, que foram responsáveis pela minha adesão. Isso sem contar com os mais clássicos, como Chico Buarque, Tom Jobim e Toquinho e Vinícius, que faziam um sambinha light mas não menos agradável. Prestando atenção em algumas letras, você percebe o conteúdo social que havia em muitas músicas punks. Só mudava a batida.

Entretanto, o que abalou mesmo minhas estruturas até então foi a música eletrônica, que eu detestava com toda a força do meu ser. Odiava qualquer coisa que não fosse tocada por músicos de verdade e achava aquele som de bips, boimps e tuns trilha sonora perfeita para um filme gay ou fundo musical para um 69 entre bichas. Mas, meu amigo, quando ouvi o primeiro cd do Chemical Brothers, toda o preconceito foi pro esgoto. Eu já havia ensaiado uma amenizada quando ouvi Kraftwerk mas não passou disso. A seqüência de seis faixas interligadas contendo batidas pesadas e uns riffs de guitarra pirou o cabeção. Daí pra chegar às sub-divisões do estilo foi um pulo. Tanto que hoje ouço lounge com maior prazer.

Essas experiências me fizeram aprender que o radicalismo barra as possibilidades. Por exemplo, eu odeio o Pato Cu (ops, Fu), principalmente depois que virou uma bolacha de água-e-sal sonora, mas acredito que um dia a banda vai me surpreender como fizeram com o primeiro disco. Los Hermanos não engulo de jeito nenhum, apesar de poucos concordarem com meus argumentos de que a banda vale tanto quanto o conteúdo que meu falecido gatinho, Flocos, enterrava nos montinhos que ele fazia no quintal. Mas enfim, gosto é que nem Fu (ops, Cu), todos têm os seus e fazem o que querem dele.

Bom, todo esse blá-blá-blá tem um motivo. Na década de 80 eu custei pra aceitar os Paralamas só porque eles faziam sexo oral (chupavam) o Police descaradamente. Mas a partir do álbum Selvagem? eu comecei a mudar minha opinião em relação à trupe de Herbert Viana. Eis que nos 90 surge o Skank chupando os chupadores Paralamas. Na época eu pensei pô, que merda. O sonzinho de reggae branco me soa muito mal. Musiquinhas chatas como Pacato Cidadão, Te ver, É uma partida de futebol (onde o Zé Ruela do Samuel Rosa solta o absurdo questionamento quem nunca sonhou em ser um jogador de futebol?....eu, ora porra) e daí pra pior. Ainda por cima, eu não gosto da cara de pão-de-queijo-vencido do Samuel Rosa. Não gosto, pronto! Não sou obrigado a simpatizar com todo mundo. Só que no penúltimo disco, Maquinarama, a banda gravou uma música que eu considero uma pérola do pop : Três Lados, com seu grudento fraseado da guitarra slide . O andamento da música é perfeito e tive que dar o braço a torcer.

O golpe de misericórdia veio quando ouvi o mais recente álbum dos mineiros. Absolutamente sensacional. Podem jogar pedras mas meu queixo caiu tanto que bateu no pé. Cosmotron me fez retornar aos anos 60/70, quando bandas como Terço, Yes, Gênesis, Focus e tantas outras faziam a festa dos bichos-grilos, além é claro, de Beatles, Psicodelismo e Clube da Esquina. O disco tem esse lado retrô (êta palavrinha bichêsca) mas é moderno ao mesmo tempo. Muitos, acostumados com o som dos trabalhos antigos e/ou com o insumportável rock-de-bermuda tocado por menininhos-com-cara-de-malvado-que-foi-criado-com-a-vovó vão ter uma ligeira dificuldade para entender Cosmotron mas se ouvir com mais atenção vai descobrir que o cd é genial.

Eu, como beatlemaniaco e macho convicto, quase choro com a levada de bateria de Super Nova, a lá Tomorrow Never Knows e com uma pitada de Rain. Outras faixas que arrepiaram os cabelinhos do braço foram Dois Rios, que bem poderia ter sido gravada por Beto Guedes, Os Ofendidos, pesada com elementos de eletrônica e É Tarde, uma espécie de bossa-nova com drum-and-bass. Mas o disco todo é bom. Todo mesmo.

Se alguém tiver a idéia de capturar um parente distante daquele ET que come a Deborah Seco (sim, aquele do comercial do Terra), e fizer com ele o manjado joguinho da Cabra-cega, fazendo o monstrinho ouvir qualquer disco anterior do Skank e o novo, ele vai dizer que são bandas diferentes e ainda vai querer te desintegrar com uma pistola de raio laser quando você revelar a verdade.

Não sei o que aconteceu com o Samuel Rosa e companhia para essa guinada mas foi algo que veio para conquistar um novo público (como eu, que agora vou ao próximo show). Só não sei se vão conseguir manter os fãs antigos. E as apresentações, como ficam? Imagina, no mesmo show, Mandrake e os Cubanos seguida de Dois Rios. É a mesma coisa de uma banda tocar alguma coisa do Pink Floyd de Syd Barret e emendar com uma versão de Mambo Number Five. Pensando bem, não ficaria tão ruim assim...

De qualquer forma, Cosmotron pode ser perfeitamente considerado o Revolver da banda. E vou ficar esperando o Sgt. Peppers ansioso.

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