A modernização versus o prazer

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Por exemplo, possuo uma coleção de discos (na qual me orgulho muito) que se divide em, aproximadamente, uns mil e quinhentos vinis e uns dois mil cds. Pois bem, outro dia, conversando com um garoto que tem a idade para ser meu filho, citei a tal coleção e ele, com um desdém de cortar o coração, afirmou que tinha mais músicas no notbook com três bilhões de mega bytes do que eu, em minhas “estantes empoeiradas”. Entendo a praticidade do MP3. Pô, não sou conservador a esse ponto. O que é difícil para um velho roqueiro entender é a ausência de coisas que eu considero tão importante quanto a própria música.
 
Já falei em outras ocasiões que eu acho o máximo comprar um cd e ler todo o encarte, desde as letras até a ficha técnica. MP3 não tem isso. É “baixar” a faixa e gravar num cd sem “alma”, que fica registrado como uma anotação feita no guardanapo da lanchonete Caga Sangue. Vou mais fundo. Música em MP3 é como masturbação. Você pode até gozar mas a mulher não está lá. Alcança o objetivo mas é uma coisa vazia (se bem que uma punhetinha até cai bem em momentos de solidão assim como o MP3 de uma faixa difícil de encontrar).

Fico imaginando onde vai parar tudo isso. E já que citei o assunto “sexo”, não está longe de nego chegar comigo e dizer que “comeu uma mulher maravilhosa na internet(!?) através de sua “câmera de alta definição com um trilhão de pixiels”  ou mesmo naqueles brinquedinhos de realidade virtual. Mulher que é bom, com peitos, bunda e cheiro, não tem, mas a sensação preenche o vazio. Preenche uma vírgula. Tem que ter mulher senão é punheta. Não interessa se os equipamentos de última geração façam às vezes de uma gostosa. ELA tem de estar lá.

Assim é com a música. Até já “baixei” algumas coisas e “queimei” alguns cds mas não fiquei satisfeito. Cadê a arte? Eu valorizo muito essas coisas. Ora, essa afirmação vem de uma cara que tem o Physical Graffiti (Led Zeppelin) original, em vinil duplo, com as diferentes janelinhas na capa. Ou o Magical Mistery Tour (Beatles) com o encarte de 24 páginas, contando a estória do filme. Quando o vinil deixou de ser fabricado em grande escala e a miniaturização veio junto com o cd, já foi uma merda, apesar da praticidade. Imagina agora, que a tendência aponta para a “desalmanização” (existe isso?) total? Que tal implantar um chip no cérebro de cada um e, quando o cara pensar em uma determinada música, ela toca diretamente na cabeça do sujeito? Ou, neguinho pensar: “hoje vou comer a Britney Spears” e um materializador do tamanho de uma unha já projeta a mulher nua, pronta para “amar”. Para mim, ir à loja numa tarde de sábado, escolher o disco, ir pra casa ansioso e pôr a bolachinha para tocar enquanto leio o encarte é o mesmo prazer de paquerar uma mulher linda, ela corresponder, trocarmos telefone e marcamos um encontro onde tudo (ou nada) pode acontecer. São os meios justificando e temperando o fim. Se isso é ser velho, pode me chamar de tio. Mas vou logo avisando. Tio é o caralho!
 
Trilha Sonora: Let it Bleed, dos Rolling Stones, tocando no toca disco Sansui da minha sala.

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