A modernização versus o prazer
Written by Marco A. Ribeiro Saturday, 05 February 2005 21:00
Por
exemplo, possuo uma coleção de discos (na qual me orgulho muito) que se
divide em, aproximadamente, uns mil e quinhentos vinis e uns dois mil
cds. Pois bem, outro dia, conversando com um garoto que tem a idade
para ser meu filho, citei a tal coleção e ele, com um desdém de cortar
o coração, afirmou que tinha mais músicas no notbook com três bilhões
de mega bytes do que eu, em minhas “estantes empoeiradas”. Entendo a
praticidade do MP3. Pô, não sou conservador a esse ponto. O que é
difícil para um velho roqueiro entender é a ausência de coisas que eu
considero tão importante quanto a própria música.
Já falei em
outras ocasiões que eu acho o máximo comprar um cd e ler todo o
encarte, desde as letras até a ficha técnica. MP3 não tem isso. É
“baixar” a faixa e gravar num cd sem “alma”, que fica registrado como
uma anotação feita no guardanapo da lanchonete Caga Sangue. Vou mais
fundo. Música em MP3 é como masturbação. Você pode até gozar mas a
mulher não está lá. Alcança o objetivo mas é uma coisa vazia (se bem
que uma punhetinha até cai bem em momentos de solidão assim como o MP3
de uma faixa difícil de encontrar).
Fico imaginando onde vai
parar tudo isso. E já que citei o assunto “sexo”, não está longe de
nego chegar comigo e dizer que “comeu uma mulher maravilhosa na
internet(!?) através de sua “câmera de alta definição com um trilhão de
pixiels” ou mesmo naqueles brinquedinhos de realidade virtual. Mulher
que é bom, com peitos, bunda e cheiro, não tem, mas a sensação preenche
o vazio. Preenche uma vírgula. Tem que ter mulher senão é punheta. Não
interessa se os equipamentos de última geração façam às vezes de uma
gostosa. ELA tem de estar lá.
Assim é com a música. Até já
“baixei” algumas coisas e “queimei” alguns cds mas não fiquei
satisfeito. Cadê a arte? Eu valorizo muito essas coisas. Ora, essa
afirmação vem de uma cara que tem o Physical Graffiti (Led Zeppelin)
original, em vinil duplo, com as diferentes janelinhas na capa. Ou o
Magical Mistery Tour (Beatles) com o encarte de 24 páginas, contando a
estória do filme. Quando o vinil deixou de ser fabricado em grande
escala e a miniaturização veio junto com o cd, já foi uma merda, apesar
da praticidade. Imagina agora, que a tendência aponta para a
“desalmanização” (existe isso?) total? Que tal implantar um chip no
cérebro de cada um e, quando o cara pensar em uma determinada música,
ela toca diretamente na cabeça do sujeito? Ou, neguinho pensar: “hoje
vou comer a Britney Spears” e um materializador do tamanho de uma unha
já projeta a mulher nua, pronta para “amar”. Para mim, ir à loja numa
tarde de sábado, escolher o disco, ir pra casa ansioso e pôr a
bolachinha para tocar enquanto leio o encarte é o mesmo prazer de
paquerar uma mulher linda, ela corresponder, trocarmos telefone e
marcamos um encontro onde tudo (ou nada) pode acontecer. São os meios
justificando e temperando o fim. Se isso é ser velho, pode me chamar de
tio. Mas vou logo avisando. Tio é o caralho!
Trilha Sonora: Let it Bleed, dos Rolling Stones, tocando no toca disco Sansui da minha sala.

Colunistas 


