10 discos que mudaram minha vida 1
Written by Marco A. Ribeiro Wednesday, 25 January 2006 22:06
1- Nós Vamos Invadir Sua Praia - Ultraje a Rigor (1985)Poderia começar com bandas que sempre tiveram um lugar especial no meu coração rocker, como Beatles, Led Zeppelin ou The Doors. Mas preferi começar com um brazuca mesmo. Explico. Em 1985, quando eu tinha 18 aninhos, cheio de espinhas na cara, querendo comer tudo quanto era menininha e me acabando na ´maria-munheca´ umas dez vezes por dia, usando o catálogo da Avon, eu só ouvia punk rock, principalmente os brasileiros. Cólera, Ratos de Porão, Olho Seco, as coletâneas Sub e Ataque Sonoro e um ou outro gringo, tipo Sex Pistols, porque eu não entendia porra nenhuma de inglês.
Na época, rolava o começo do chamado Brock, com Blitz, Barão e Gang 90. Eu me achava o fodão por ouvir coisas que não tocavam na rádio e me orgulhava por detestar todas aquelas músicas que a boyzada curtia nas danceterias. Quando os Paralamas se apresentaram no Rock In Rio (que assisti pela TV), rolou um som que despertou um puta interesse em comprar o disco da trupe de Herbert Viana (que eu detestava até então). O petardo se chamava ´Inútil´ que, na verdade, era de um grupo paulista chamado Ultraje a Rigor.
No
dia seguinte, com as economias que fiz descendo pela porta de trás dos
ônibus, fui atrás do Lp mas só encontrei um compacto, com um bando de
nerds na contracapa. Lá estava ´Inútil´ no Lado A e ´Mim Quer Tocar´
no Lado B. Adorei o riff de guitarra do tal Edgard (que já conhecia do
Smack) e ouvia aquilo duzentas vezes por dia na minha eletrola
portátil, escondido dos meus camaradas punks.
Certo dia, um velho
amigo de infância me convidou para fazermos uma cabra-cega (não, não
era uma brincadeira homossexual). Funcionava assim: quando alguém da
turma comprava um disco novo, nos reuníamos para ouvir as faixas e
tentar adivinhar do que se tratava. Um tipo de Qual é a Música
doméstico.
O cara resolveu começar com a primeira faixa do lado B, justamente ´Inútil´ , com a guitarra estupidamente pesada. Puta merda!!! É Ultraje a Rigor? Sim, o disco Nós Vamos Invadir Sua Praia, novinho em folha, recém lançado, que o filho da puta havia comprado naquele mesmo dia. Pirei o cabeção. Quase choro implorando um empréstimo para eu gravar uma fita K7 mas, como de praxe, era quase um orgasmo deixar o outro fudido de inveja e, por isso, ele não me emprestou (só dois dias depois, quando resolvi barganhar LP Ronaldo Foi Pra Guerra, do Lobão e os Ronaldos, que eu havia negado antes, consegui fechar o negócio).
Somente uns quinze dias depois consegui comprar a bolacha, que estava sumindo das prateleiras assustadoramente. Espetacular era pouco. Faixas como ´Zoraide, ´Independente Futebol Clube´, ´Rebelde Sem Causa´, a faixa título e a versão porrada de ´Inútil´ eram matadoras. Depois de algumas audições, eu já sabia cantar todas as músicas, de cabo a rabo. Comecei a prestar mais atenção no que estava surgindo no cenário roqueiro nacional graças ao Ultraje. Aí vieram Ira, Titãs, Camisa de Vênus e Magazine. Mas isso é outra história.
O disco, produzido por Liminha e Pena Schmidt, era um bálsamo. Bem gravado (bom, para quem só ouvia os independentes da Baratos Afins, Woodstock e Wop Bop, os das grandes gravadoras eram bons demais da conta), pesado, com onze faixas que eram absolutamente deliciosas aos ouvidos de um jovem roqueiro onanista, e letras que tinham um lado engraçado mas, ao mesmo tempo, sério, com umas pitadas de punk, meio Bezerra da Silva, meio Joelho de Porco, sem ser panfletário. Por muito tempo, deixei os punks e os dinossauros de lado.
Certo dia, ouvindo a rádio (sim, eu estava mais flexível neste ponto), veio a notícia:Ultraje A Rigor, o melhor, o mais destemido, o mais nova república dos grupos de rock, dia 23 de outubro, na danceteria do Hotel Tropical.* Pirei. No dia, quando soube que a banda estava na cidade, peguei emprestado um gravador do tamanho de um fusca e me taquei pro hotel pra descolar minha primeira entrevista com uma estrela da música. Furei a segurança, paguei mico quando confundi o irmão do Roger, Ricardo, com ele (cara de um, focinho de outro) e entrevistei o líder da minha banda preferida (que ficou segurando o fusca gravador enquanto eu fazia as perguntas), com palhas do Carlinhos e Leospa. Foi incrível. Ainda saí com o meu LP autografado.
Hoje, 20 anos depois, com o lançamento do Acústico MTV, fico feliz em saber que a banda continua afiada. Mesmo com apenas o Roger de integrante original (Sergio Serra não conta porque só entrou no segundo disco), o Ultraje a Rigor continua sendo uma das melhores e mais divertidas bandas do Brasil. Afinal, rock and roll é diversão, é sexo, é tesão. Se não tem esses ingredientes, devolva que é falso.
* Nota do Editor: No tempo que o Roger ainda andava de avião..

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