Tributo a Robertinho do Recife
Written by Marco A. Ribeiro Friday, 01 September 2006 21:57
O parágrafo acima prima pela revolta mas consciente que nada vai mudar. Na verdade, os textos panfletários já não têm tanto efeito como tinham há, sei lá, 30 anos. Reclamar da indústria fonográfica é chover no molhado e somente a ingenuidade cavalar pode conceber a idéia de que os CPMs, Hateens, Detonautas e afins vão ser banidos das paradas para dar lugar a músicos de verdade. Esqueça. Isso nunca vai acontecer. Mas nada nos impede de prestarmos homenagem, independente da vendagem ou da execução, a grandes nomes da música brasileira que muito deram e pouco receberam do público.
Vamos lá então. Em um dia quente de verão dos anos 80, estava eu na casa de um companheiro de copo e de fumo quando ouvi, pela primeira vez, uma música do Fagner - desculpem, por favor - que se tornaria um dos maiores hits do ano e chapei com o solo de guitarra que se destacava de tal forma que nem dava vontade de ouvir o resto da canção. A faixa era Revelação e o responsável pelas seis cordas era o já veterano Robertinho de Recife. Na época, depois de comer o pão que o diabo amassou e quase ter sido um integrante do Watch Pocket (você sabe, oh mammy, oh mammy mammy blue, oh mammy blue), Robertinho foi adotado pelo cearense Fagner (bom, alguma coisa boa ele tinha que fazer de boa nesta existência) que deu fôlego na carreira que já ameaçava ser encerrada devido várias cabeçadas e desencontros.
No Rio de Janeiro, conheceu o gostinho da fama e freqüentou as paradas na época em que faixas como Noturno e a própria Revelação tocavam a cada minutos em tudo quanto era rádio. Do mais chique ambiente ao puteiro mais fétido, nenhum estava inseto de ser embalado pela hipnótica guitarra de Robertinho.Mas nem tudo dura para sempre. Fagner parou de fazer sucesso (thanks God!) e Robertinho seguiu em frente. Quando gravou o genial e pouco compreendido Metal Mania, conquistou os headbangers, que se tornariam seu público mais fiel. O power trio, completado pelo baixista Fernando Souza pelo baterista Zé Renato Massa, detonava petardos como Fogo, Assassina e o hino Metal Mania, incluindo clássicos metálicos de Iron Maiden, Deep Purple e Judas Priest. Isso foi pouco depois do primeiro Rock In Rio, o que lhe custou a fama de aproveitador e, cá entre nós, mesmo que fosse oportunismo, o que importa é que o cara mandava muito bem. Mas a fase heavy durou pouco e veio a clássica.
Numa (boa) sacada, pegou temas de monstros sagrados como Beethoven, Villa-Lobos e até Beatles e os reinventou para sua guitarra. Conseguiu o tema de abertura de uma novela mas nada muito mais além disso. Resolveu, então, apelar. ´Preciso pagar minhas contas e ter talento não basta por aqui´ (deve ter pensado). Chamou o grupo de apoio da cantora Rosana (você sabe, ´como uma deusaaaaa´) e formou o Yahoo. Parecia Roupa Nova e, segundo o próprio Robertinho, foi formado pra ganhar dinheiro mesmo. A diferença é que a veia roqueira estava lá. Para quem esperava com ansiedade o segundo disco do Metalmania, ficou um pouco alegrinho (mas não muito) com a nova banda. Independentemente do formato, era Robertinho na guitarra.
A banda fez um sucesso tão grande com versões para músicas do Def Leppard e Aerosmith que passou a ser figurinha carimbada nos programas do Silvio Santos, Xuxa, Raul Gil e trocentos outros. A diarista, fã de Fernando Mendes e Odair José, suspirava ao som de Anjo e Pra Você Ficar. Mas a super-exposição tem seu preço e logo a coisa desenfreou. De saco cheio, Robertinho abandou a cria e saiu de cena, a banda tentou mais um disco mas não era a mesma coisa.* Depois disso, nunca mais. Nenhum outro disco com a marca mágica da guitarra genial do recifense. Aqui e acolá surgia um álbum produzido ou com uma discreta participação especial.
O escriba aqui, fã que é, chegou até a comprar um (horroroso) cd de estréia de Roberta Little, filhota do músico, só porque pensava que a rebenta iria continuar a saga do pai. Ledo engano. As últimas notícias é que o mestre das seis cordas nem pensa em voltar a gravar. Quer produzir, compor para outros artistas (vide Falcão, Zé Ramalho e afins) mas voltar aos palcos, neca de pitibiriba. Uma pena. Quem assistiu o cara ao vivo guarda belas recordações de um dos melhores músicos de todos os tempos, que não enxergava barreiras de estilos - tocava do forró ao heavy metal e bem - e que poderia constar entre os dez melhores guitarristas do mundo, lado a lado com Jimi Hendrix, Eric Clapton ou B.B King. Só não está por uma simples questão geográfica. Nasceu no Brasil.
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* Nota do editor: O Yahoo está de volta, com formação antiga, mas sem Robertinho de Recife

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