Crise da meia-idade

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Partindo deste ponto, resolvi tirar um tempinho do trabalho e da interminável pós-graduação e fui para um show, coisa que eu não fazia há tempos, salvo a apresentação de uma ou outra banda local em algum pub fedorento. Como moro numa cidade onde as opções de bons shows são restritas – a única opção que se tem é de ir ou não – comprei um ingresso para assistir Léo Jaime, Marcelo Nova, Nasi e Rádio Táxi que estão juntos na turnê Anos 80, parte 3.

Chegando ao local não muito cheio, comecei a ter impressão de estar numa daquelas festas que se fazem para distrair idosos em asilo. Tá bom estou exagerando, mas foi como me senti ao deparar com senhores carecas e barrigudos e suas respectivas senhoras com os peitos caídos, cobertas com toneladas de maquiagem e vestidas com modelitos dignos de fazer Clodovil se contorcer no túmulo.
Mas deixei pra lá, afinal estava lá pra me divertir e não para assistir Caetano Veloso. Iria se apresentar um dos meus ídolos da infância, que hoje é mais conhecido como o pai daquela guria bocuda que fala sobre sexo na MTV. Tomei umas cervejas – três no total – e fui para o gargarejo, local onde eu sempre gostei de assistir shows.

Depois de uma espera razoável – em que alguns dos presentes já se mostravam impacientes, culminando em brados do quilate de “ começa logo que velho não pode ficar muito tempo em pé” – entrou a banda de abertura, que só toca covers oitentistas, incluindo aí hits do Trem da Alegria, Balão Mágico e Dominó. Foi um aquecimento adequado seguido de uma espera de mais ou menos meia-hora até a entrada do primeiro astro da noite. Pela lateral do palco entrou uma barriga enorme, que só existe em contos de fadas. Dois minutos depois, no outro extremo do enorme abdômen, surge aquele que já foi conhecido como Léo Jaime, empunhando sua fender e detonando um surf rock, com direito a citação de Black Eyed Peas. Depois, já enturmado, destilou seus hits que faziam a alegria da moçada há mais de vinte anos.

Na seqüência, veio o Nasi e seu visual Wolverine. Na verdade, ele substituiu Paulo Ricardo de última hora, que foi convidado pra tocar em um concurso de miss (isso ainda existe!!). A troca foi boa porque o vocalista mandou muito bem em clássicos do Clash, Ramones e, naturalmente, Ira.

Marcelo Nova, apesar dose seus ´98 anos´, foi o melhor da noite. Sarcástico como ele só, detonou um set curto mais vibrante, com muito rock and roll e putaria, bem ao estilo de Jerry Lee Lewis. É claro que sempre tem aquele  chato que grita “toca Raul” mas Marceleza não precisou de tal artifício e mandou bem nas inesquecíveis músicas do saudoso Camisa de Vênus, incluindo a ultra-mega-clássica Silvia (com o corinho de piranha misturado com tosse típica de velho que engasga com o próprio riso).

Quando viram que a velharada ficou meio sem ar com o rock vigoroso do baiano, mandaram o Rádio Táxi para dar fôlego para os que já estavam apelando para a bomba de oxigênio. O problema passou a ser dos diabéticos que tiveram uma dose extra de sacarose com aquelas musiquinhas mela-cueca da banda do (grande guitarrista) Vander Taffo. E tome Eva e Coisas de Casal goela abaixo.

Pra terminar, voltou Léo “a pança” Jaime, que juntou toda trupe toda para mandar ver no clássico Johnny B. Good, mezzo original, mezzo em versão feita pelos Miquinhos Amestrados.

Eu poderia voltar para casa mais deprimido ainda, pensando que os ídolos da minha juventude estão na pior, fazendo essas turnês saudosistas para descolar uns trocados, tal qual faz o pessoal da Jovem Guarda há duzentos anos. Preferi, no entanto, me deter ao espetáculo em si, onde (re)lembrei de antigas canções que embalaram uma época tão deliciosa como foi a década de 80. Tudo bem, parece que estou me conformando. Mas, justiça seja feita, não se faz mais música como se fazia.

Em tempo: o show aconteceu no dia 14.04, no Studio 5, em Manaus.

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