10 discos que mudaram minha vida 3

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SECOS & MOLHADOS (1º ) 

Em  1973 eu completei  seis primaveras e adorava televisão. Lembro bem que, naquela  época, o aparelho era privilégio de poucos e a vizinhança se reunia na janela dos abastados para assistir as novelas da Globo. Lembro de um domingo, quando eu ouvi minha mãe comentando sobre um grupo de mascarados que estavam aparecendo na TV. Corri pra ver e me deparei com três camaradas com a cara pintada, com destaque para o vocalista, que rebolava mais que cobra epilética em uma frigideira com óleo fervendo.  A música falava de lobisomens, gato preto, floresta. Fiquei com um pouco de medo mas fui até o fim, quando o magrelo botava a língua pra fora no último acorde. Falei pra velha que, quando crescesse, queria ser igual aquele cara. Ela olhou pro meu pai, fez uma cara feia, comentou alguma coisa em voz baixa e nunca mais me deixou assistir o grupo que se chamava Secos e Molhados.

Mais tarde, já independente e viciado em música e outras substâncias menos nobres, catei o primeiro disco dos mascarados e pirei com a sonoridade que misturava blues, baião, pop, rock e tantas outras coisas. E foi um marco na época. Foram mais de 800 mil cópias, deixando o até então imbatível Roberto Carlos chupando o dedo. Tudo saiu da cabeça do português de Arcozelo chamado João Ricardo, que convidou Ney Matogrosso e Gerson Conrad para formar um grupo musical que fundia teatro, poesia e dança.

Mas o que chamava mesmo atenção era a performance de Matogrosso. Lembrem-se que neguinho afeminado não era muito bem visto num país onde a turrona ditadura militar dava as cartas. Mas, talvez, por isso mesmo, que a banda atraiu tanto o público, chegando a lotar estádios. Reza a lenda que o visual do KISS foi inspirado nos brasileiros, mas há controvérsias. O fato é que, depois de um sucesso astronômico e sem precedentes,  a banda acabou depois de lançar o segundo álbum, que era muito bom também. João Ricardo queria o controle e Ney e Gerson queria partes iguais (muito justo). Assim, devido a conflito de interesses, foi por brejo  uma das mais irreverentes bandas que o Brasil já teve e que, na minha humilde opinião, estava pau a pau com os MUTANTES.

Em relação ao disco, obra prima é pouco para definir a bolacha. Estão lá hinos como Sangue Latino, O Vira, Amor e Rosa de Hiroshima, esta última, um poema musicado de Vinícius de Moraes. Todas elas tocadas exaustivamente nas rádios, nos toca fitas, nas eletrolas e no serviço de auto falante da praça perto da casa da vovó. Mas, além dos hits, haviam umas pérolas escondidas como Primavera nos Dentes, um blues com uma letra que deveria ser um dos salmos da bíblia. Não acredita? Saca só a letra:

Quem  tem consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
E no centro da própria engrenagem
Inventa a contra-mola que resiste
Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
E envolto e tempestade, decepado
Entre os dentes segura a primavera

Outra que vale a pena citar é a empolgante Mulher Barriguda que, implicitamente, questionava, de forma bem humorada, as incertezas em trazer mais gente para um mundo que vivia em guerra e, como diriam os punks alguns anos depois, não tinha futuro.

O disco fecha com a lindíssima Fala, com um teclado a lá Rick Wakeman, e um andamento meio progressivo. E era terminar a faixa e levar a agulha para a primeira do Lado A de novo. Quem bom que Charles Gavin (batera dos Titãs) teve a brilhante idéia de lançar em cdresgatar essa obra que é obrigatória em qualquer discoteca. Não tenho certeza mas acho que foi o primeiro resgate da série Arquivos da Warner.

E, só pra constar, depois da saída Gerson Conrad e  Ney Matogrosso - que nas décadas seguintes teve uma brilhante carreira solo como  interprete da MPB além dos méritos de trazer a luz o Barão Vermelho (depois de dar uns pegas no Cazuza) e produzir o milionário show de uma banda que estourou e caiu rapidinho tal qual os Secos e Molhados (sim, é o RPM) – João Ricardo tentou manter viva a chama, sem sucesso. Até escalou um cantor com um timbre vocal parecido com o de Ney (um tal de Norival ) e outros bons músicos, como o futuro Rádio Táxi Wander Taffo, e chegou até fazer um certo sucesso com a bonitinha Que Fim Levaram Todas as Flores, mas nada seria como antes. E o cara até hoje ainda insiste em manter o nome sagrado da banda, em discos chatos e sem criatividade. Secos e Molhados sem Ney é como Mutantes sem Rita. Pode até ser legal mas fica parecendo banda cover.
Nota: Recentemente, foi lançado um tributo ao disco, chamado Assim Assado, onde as faixas foram organizadas na mesma seqüência original, com gente como  Pitty, Nando Reis e Ritchie interpretando as canções. Serve de aperitivo para quem não tem o original.

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