O que seria da música sem os gays
Written by Marco A. Ribeiro Monday, 25 February 2008 21:48
De fato, aquilo me deixou intrigado. Ora bolas, ele tem razão. Senão vejamos. Minha banda preferida, desde a época que eu ainda borrava as calças quando via o Grande Otelo no televisor preto e branco da minha avó era os Beatles. Mais tarde, quando me tornei expert na estória dos cabeludos, fiquei sabendo que um cara chamado Brian Epstein foi o responsável pelo estouro dos rapazes na Inglaterra, depois na Alemanha, depois nos EUA e, finalmente, o resto do universo. O cara era homossexual sim, e daí?
Foi ele quem acreditou naqueles moleques ensebados que detonavam no Cavern Club. Foi ele quem apostou na energia e na alegria daqueles suburbanos que, aos olhos despreparados, não passavam de um bando de pinguços que queriam comer as inglesinhas e eram movidos a álcool e a comprimidos. Foi ele quem abriu as portas para os caras para gravarem seus primeiros compactos (e, posteriormente, LPs) e comprou quase todo os estoque para que o nome da banda aparecesse na lista dos mais vendidos. Foi ele, Brian Epstein, a dondoca inglesa, a bonequinha que (reza a lenda) dava em cima de John Lennon, a bicha que deu ao mundo o maior fenômeno musical do século XX. Nada mal.
Daí, pensando mais um pouquinho, me vêm à mente outras bichas não menos importantes. Ora, quem é que pode negar a magnitude do Queen (gíria inglesa para gay) e seu vocalista absurdamente talentoso e inigualável Freddie Mercury? Ou mesmo a influência de dois gênios camaleônicos como Elton John e David Bowie em tudo que foi feito nos anos 70 em diante? Ou então, a crueza e a verve poética urbana do (feioso) Lou Reed e seu Velvet Underground?
Mas não vamos tão longe. Dois exemplos aqui mesmo, na terra descoberta por Cabral. Sem pensar muito. Cite os dois grandes ícones dos anos 80, que são celebrados até hoje e que deixaram uma obra preciosa para a música brasileira. Sim, exatamente, meninos e meninas. Renato Russo e Cazuza. Duas bichas maravilhosas e talentosas, que viraram purpurina cedo demais (os bons morrem jovens) que provaram por A + B que letras bem construídas e rock and roll poderiam ser bons parceiros (ou mesmo, amantes). Quem tem tendências homofóbicas pode até torcer o nariz mas não pode negar a influência desses caras (ou dessas monas) para tudo que se fez após Barão Vermelho e Legião Urbana (esta última, venerada como uma espécie de religião até hoje).
É claro que temos muitos outros exemplos, que vão de Cole Porter a George Michael. Mas não vamos nos alongar muito. O fato é que não há como negar a importância de caras com preferência sexual alternativa (para ser politicamente correto) na música que ouvimos e adoramos. Sem essa de que existe música pra macho e música pra bicha. Tem neguinho que acha o heavy metal o supra-sumo da testosterona mas esquecem que um dos seus maiores ícones (Rob Halford, do Judas Priest) é chegado a uma salsicha. E por que dizer que ouvir Morrisey é coisa de viado quando tudo mundo grita uh-hu em qualquer festa onde rola Smiths? Besteira. Como dizia o velho Louis, só existe a música boa e a ruim. E boa parte de música boa produzida nos últimos cem anos tem um dedo (ou o quer que seja) daqueles que até hoje ainda são recriminados por assumirem o que gostam e lutam pelo direito de serem tratados como uma pessoa normal, como qualquer outra, hetero, metro, pam ou que diabo seja. Ou você ainda tem dúvida de que assumir o homossexualismo em qualquer que seja a sociedade, não é coisa de macho?
Dedicado ao grande Serguei, o veterano rocker bruzuca, que além de ter comido a Janis Joplin, mostrou que é possível envelhecer com o rock and roll nas veias e ainda deu boas dicas de novas possibilidades de prazer, como transar com árvores, por exemplo.
- Comments

Colunistas 


