Música para fim de caso

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Terminar um relacionamento, na maioria das vezes, é uma dor difícil de lidar, principalmente quando você ainda é apaixonado(a) pelo filha (o) da puta que te abandonou. Quase sempre a pessoa perde o chão que pisa, fica vagando pelos cantos da casa com cara de débil mental, lembrando os momentos que passaram juntos, chorando mesmo quando assiste uma comédia no cinema, olhando sempre para o vazio, atravessando o sinal vermelho, fumando um maço por dia, bebendo todas ou até batendo na própria mãe.

E quando o(a) infeliz descobre que o amor da sua vida, aquela (e) que lhe deu um pé na bunda mas disse que (de certa forma) ainda o(a) amava, que o problema era com ela(e) e blá blá blá,  está desfilando com um outro alguém (só pra usar um termo jovenguardiano), aí a coisa pega. A tristeza mescla com ódio, o mundo passa a ser o pior lugar pra se viver. Tudo é uma merda. 

Pra completar, ainda tem os amigos em comum, que não deixam você esquecer. Sabe aquele sujeito que chega com um risinho cínico e dá a entender que a (o) fulano(a) que você mantinha no pedestal do seu coração está trepando com outro(a)?

O que fazer nessa hora? Levantar a poeira e dar a volta por cima é foda. Pelo menos, não de cara. Sair com outras pessoas também não é indicado, até porque sempre tem alguém que vai te encontrar e perguntar pela vaca ou veado que te deixou.

O negócio é se isolar e lamber as feridas como um animal ferido. Isso pode ser um conselho que dez entre dez psicólogos, melhores amigos, pais, tias e vizinhos iriam reprovar mas, que se danem. Tudo passa, o importante é estancar o sangue.

Para esses momentos de dor extrema, que só perde para um parto natural, um enxame de próstata ou a morte de um ente querido, nada melhor que música. Bom, que tipo? Axé é que não é. Pode ser brega rasgado, velha guarda ou mesmo emo. Depende do gosto do freguês.

Aos amantes da música pop nacional, sugiro dois gênios da minha geração. Renato Russo e Cazuza. Eu poderia citar qualquer disco do Roberto Carlos da década de setenta mas ia ser óbvio demais (apesar de eu ouvir sempre que meu coração é despedaçado).

Imediatamente após seu traseiro ser chutado, Legião Urbana é a melhor pedida. É o momento mais difícil, quando o sangue está jorrando em abundancia, quando o sentimento suicida está mais aflorado em sua mente. Ouvir canções como Longe do Meu Lado, Vento no Litoral, Os Barcos ou mesmo A Via Láctea é como se jogassem limão e sal na ferida aberta. Se segure para não se pendurar no teto da cozinha. Barra pesadíssima. Mas, se passar vivo dessa fase, que deve durar uns dois meses, dependendo do relacionamento, vem a fase de libertação, do “foda-se”, do “eu sou mais eu”. É aí que entra o Cazuza (atenção: só dos três primeiros discos) e o Barão Vermelho. Ouvir Menina Mimada, Obrigado, Carne de Pescoço ou Solidão que Nada é um bálsamo, uma delícia, uma espécie de vingança solitária que lava a alma.

O interessante é notar que o mesmo tema é abordado de forma diferente pelos dois poetas. Depois de um fim doloroso, de uma punhalada nas costas, Renato chorava “dos nossos planos é que tenho mais saudades / quando andávamos juntos na mesma direção” ou “você diz que tudo terminou / você não quer mais o meu querer / estamos medindo forças desiguais / qualquer um pode ver / que só terminou pra você” enquanto que Cazuza detonava “foi você que quis embora / agora volta arrependida e chora / olhar pedindo esmola” e “obrigado por ter se mandado / ter me condenado a tanta liberdade”.

Depois de ter perdido uns dez quilos, ter mandado o seus amigos para as putas que os pariram, de perder (ou quase) o emprego, de ter sido reprovado nas matérias mais fáceis da escola, faculdade e afins, de ter virado assunto para o churrasco domingueiro dos colegas, de ter vomitado as tripas todas as vezes que ouvia o nome ou sentisse o perfume dela(e) e ter procurado desesperadamente alguém que tivesse o mesmo jeito, o mesmo corpo, o mesmo rosto e até o mesmo nome da(o) ex, você experimenta uma paz e olha pra trás com uma certa vergonha, do sofrimento sem razão, do papelão que cometeu no trabalho, das lágrimas derramadas, das pessoas que você usou o ombro para assuar o nariz. 

Tudo acabou e você saiu vivo(a), mais experiente e pronto pra outra. A música te deu uma força, te ajudou a superar, foi como uma companheira presente quando você estava no fundo do poço e te ergueu para ver de novo a luz do sol. Depois de tudo, você até chega à conclusão que aquela pessoa nem valia tanto a pena.

Agora sim, vida nova. E se quiser ouvir a porra da Ivete Sangalo, vai em frente.

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