A eminente extinção dos poetas do rock brasileiro

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Eu tô sentindo que a galera anda entediada
Não tô ouvindo nada, não tô dando risada
E aí, qual é? Vamos lá, moçada!
Vamos mexer, vamos dá uma agitada!
Esse nosso papo anda tão furado
É baixaria, dor de corno e bunda pra todo lado
Eu quero me esbaldar, quero lavar a alma
Quem sabe, sabe e quem não sabe bate palma
E pra celebrar a nossa falta de assunto
Vamos todo mundo cantar junto
Eu não tenho nada pra dizer
Também não tenho mais o que fazer
Só pra garantir esse refrão
Eu vou enfiar um palavrão ... Cu
 
Outro dia, quando o cinqüentenário de Renato Russo foi notícia, fiz uma varredura mental dos últimos vinte e cinco anos do pop nacional e percebi que sou um privilegiado por ter pertencido a (aparentemente) última geração de grandes letristas brasileiros. Depois dessa dura reflexão, saí para dar uma volta de carro e sintonizei uma rádio de flashback que tocava Nada a Declarar (Ultraje a Rigor), que abre esse artigo. E pensei: é um sinal.
 
Olha que eu tinha certa inveja das gerações anteriores. Lembro que no auge da new wave brazuca, quando tocavam exaustivamente nas rádios, bandas como Dr. Silvana e Cia, Titãs (da primeira fase), Absynto, Inimigos do Rei e outras bobagens que nem valem a pena citar, eu sentia até vergonha. Preferia Raul Seixas e os punks ingleses. Bom, era a época do milagroso plano cruzado, quando pipocavam mais bandas por minuto do que um morto de fome na África. Daí eu ouvia/via aquelas coisas nas rádios, na TV (Chacrinha, Clip Clip, Mixto Quente) e pensava como eram felizardas as pessoas que viveram a época dos festivais, com Chico, Caetano, Vandré, Gil e tantos outros no auge da criatividade.
 
No entanto, o tempo passou e o joio foi separado do trigo. Ficaram Cazuza, Renato Russo, Humberto Gessinger (sim, porque não?), Julio Barroso, Paulo Ricardo, Roger Moreira, Herbert Vianna, Marcelo Nova e até os caras do Titãs, que colavam o ouvido no radinho de pilha no início carreira mas que perpetraram álbuns fundamentais, com letras poderosas. Esses caras faziam a gente pensar e entender o que se passava naquela conturbada (e feliz) década quando ainda havia censura e regime militar.

Hoje, mesmo olhando no espelho e me sentindo velho e acabado, sinto muito orgulho de pertencer à geração que lia livros (aquelas coisas com páginas de papel, capa, etc.), se deleitava ouvindo discos de vinil, mesmo com todo o esforço físico de levantar para trocar o lado da bolacha (quando era LP demorava um pouco...já com o compacto, a freqüência era maior), colecionava gibis, marcava com os amigos a hora sagrada de assistir aos parcos programas de música que existiam (e isso valia para os desenhos toscos, sitio do pica pau amarelo, Batman e agente 86) e tantas outras coisas legais que ajudaram a formar a cultura pop da geração que nasceu na década de 60.

Não me entendam mal. Não sou contra o progresso mas apelo pro bom senso. Na geração da internet, pouco se cria e muito se copia. E é aquela xerox sem cor, sem vida, que já foi copiado zilhões de vezes. A gurizada de hoje, daqui a uns vinte anos, não vai poder dizer o que digo agora. Tá tudo muito frouxo, sem conteúdo. Parece papo de velho ranzinza? Não, não é. Os quarentões do pop ainda dão conta do recado e enchem as casas de shows. Dinho Ouro Preto, Frejat, Herbert, Titãs (de novo) continuam em alta e (pasmem), se mantêm como referência. Não é surpresa nenhuma dizer que Renato Russo, morto há mais de uma década, é o um dos compositores mais citados pela gurizada aborrecente. E é mesmo. Isso que dizer que há mais de dez anos não surgiu nada de relevante na indústria pop nacional. Triste.

Podemos culpa alguém ou alguma coisa? Até podemos mas do que adiantaria? Vai mudar alguma coisa? O tempo não para e nada vai retroceder. Tudo bem que tem muita gente se voltando para as coisas boas do passado, como o velho vinil, por exemplo. Mas cabeças pensantes não se criam num clic. A rapaziada que está nas paradas até tenta mas passa longe de um discurso mais elaborado, sempre usando rimas no infinitivo e tocando e mesma tecla.

Agora eu entendo porque os emos vivem chorando, abraçados uns aos outros.

Mas, de repente, eu possa estar absolutamente errado. Porcarias toscas do passado viraram cult hoje. Quem sabe, daqui a duas décadas, as pessoas citem os poetas do pop do século XXI e celebrem a criatividade e a força das letras que ainda usavam as palavras inteiras (considerando que, pela tendência virtual, escrever vc, belê, niver e fds vão se tornar parte da ortografia formal nos próximos anos).

Até lá, espero sinceramente já estar morando no mesmo (ou próximo) conjunto residencial de Cazuza, Renato e Julio Barroso.

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