Thursday Oct 23

Beatles

Attention: open in a new window. PrintE-mail

Beatles -divulgaçãoTudo já foi dito sobre esses quatro gênios que revolucionaram não só o conceito de se fazer música mas também padrões de comportamento. A história do grupo já foi contada, recontada e contada novamente e muitos dos mitos foram derrubados quando a série Anthology foi lançada e mesmo depois de 30 anos após a dissolução, os Beatles continuam fascinando e influenciando. Ou o que você pensa que Oásis, Travis, Coldplay, Smiths, e etecétara à enésima potência ouviam quando empunharam seus instrumentos pela primeira vez e decidiram seguir a carreira musical??
 
A trajetória dos ingleses começou num dos colégios de Liverpool, quando o irrequieto John Lennon desafiou as convenções moralistas defendidas pela sua conservadora tia Mimi e formou uma banda de rock. Virou ícone da molecada e desde aí já era um líder nato.
 
Paul McCartney chegou um pouco depois, impressionando com sua habilidade de tocar Twenty Flight Rock, John, que não dominava muito as seis cordas, ficou boquiaberto mas não deu o braço a torcer. Fez doce, ficou por ali, disfarçou e mais tarde acabou contratando o guri que, por sua vez já trouxe o caçula George, recém saído das fraudas mas que tocava uma barbaridade.
 
Formada a tríade sagrada, contando com Pete Best na bateria, o grupo ganhou a simpatia dos freqüentadores do lendário Cavern Club, tanto que algum fã foi na lojinha do empresário Brian Epstein pedir um disco da banda mesmo quando os caras ainda não tinham cogitado gravar sequer um jingle para a meia-cinta de Queen Elizabeth.
 
Epstein, que não é besta nem nada, apostou nos garotos, provavelmente com uma intenção velada de ter algum contato íntimo com um deles, possivelmente o bonitão (e comedor) Lennon. Com seu tino comercial, mudou a imagem dos rapazes trocando as jaquetas de couro fedendo a cachorro velho pelos terninhos franceses que estavam na moda e retirando as toneladas de brilhantina dos cabelos para moldar o penteado de franjinhas que foi copiado até pelos carecas.
 
Com os devidos contatos e propinas, depois de algumas decepções, incluindo aí a rejeição da gravadora Decca, que mais tarde, para minimizar a cagada, contratou os Rolling Stones, chegou-se a um produtor da EMI ODEON chamado George Martin, que trabalhava com música clássica e  comediantes, que pouco conhecia de música pop. De cara se invocou com Ringo (que já havia substituído Pete Best) e nem deixou o narigudo gravar o primeiro single, o aclamado
Love Me Do. Os primeiros discos eram uma espécie de apanhado das influências dos garotos, que iam desde o rock and roll básico até a soul music. Somente quando a beatlemania já estava fervilhando foi lançado A Hard Days Night, recheado de músicas próprias.
 
Aliás, no Brasil, o lançamento deste disco deu uma sacudida na garotada acostumada com a sonolenta bossa nova. O filme OS Reis do Ié-ié-ié mostrou ao mundo um pouquinho da vida que aqueles pobres infelizes levavam. Carrões, dinheiro, mulherada, sucesso, enfim, uma vida de sofrimento e dificuldades que dava pena. É claro que a onda pegou por  aqui e os mais abastados conseguiam os discos importados e tacavam versões em português. Foi aí que surgiu a Jovem Guarda...mas isso é outra história. Voltando aos Beatles. ..
 
A estratégia de marketing de Epstein foi tão, mas tão bem bolada que o grupo vendeu milhões de cópias de seus singles e deixou trilhões de mulheres molhadinhas numa época que televisão era um artigo relativamente raro (principalmente no Brasil) e computador era algo só visto em cinema e mesmo assim do tamanho do Titanic. A moçada se divertia mesmo era no escurinho do cinema chupando drops de anis. E foi no cinema que os Beatles apareceram para o planeta tocando canções bobinhas mas que serviam de trilha para suas personalidades magnéticas brilharem.
 
No começo tudo era bom. Excursões pelo mundo (menos no Brasil), milhões de discos, número 1 nas paradas, ginásios, auditórios e estádios super lotados de mulheres ensandecidas. Quem nunca sonhou em ser um super astro? Mas depois de um tempo, em que a necessidade de um aprimoramento musical floresceu, as agitações dos concertos não agradavam mais e o tesão foi acabando até brochar de vez.
 
Quando decidiram parar de tocar em público todo mundo pensou que o fim havia chegado, mas o melhor estava por vir. Sem a necessidade de correr de um lado pro outro para fazer seus shows, os quatro tiraram umas merecidas férias, cada um fez o que quis e se reencontraram com a cabeça mais leve e aberta. A primeira cria desta nova fase foi o surpreendente Revolver, que já trazia elementos que mais tarde seriam usados em Sgt.Pepper’s. Destaque para Tomorrow Never Knows e seus solos invertidos e batida hipnótica, e a beleza lírica de For No One.
 
Quando lançaram o álbum do Sargento Pimenta e o Clube dos Corações Solitários a revolução chegou. Em 1967 eu ainda era um espermatozóide lutando com os meus 76.893.342 irmãos para conquistar um lugar ao sol e quando nasci, o LP havia sido lançado. Lembro que o primeiro som que escutei quando fui parido foi A Day In Life, que o médico estava escutando enquanto cortava meu cordão umbilical.
 
A música pop passou a respirar de forma diferente desde então. Nada ficou imune à influência dos Beatles e mesmo não fazendo mais shows, os caras estavam mais presentes que nunca. Muito se comentou à respeito de Sgt. Peppers mas muita coisa foi desmentida pelos próprios autores. Por exemplo, o disco não era o que ficou conhecido como conceitual. A idéia original era mesmo fazer algo como se outro grupo estivesse tocando e não os Beatles. Durou só as duas primeiras faixas, ou seja, a faixa título seguida de With A Little Help From My Friends. John Lennon foi um dos primeiros a se manifestar sobre o assunto, dizendo que suas composições nada tinham a ver com as músicas escritas por Paul McCartney.
 
Os álbuns seguintes não tiveram tanta influência no mundo pop mas seu grau de importância não era desprezível. Longe disso. O Álbum Branco, por exemplo, pode ter sido criticado por ser longo demais mas mostra que a versatilidade e capacidade de criação ainda eram a mola mestra do grupo. Um disco que tem Helter Skelter e Blackbird deve estar figurando em qualquer lista das 10 melhores de todos os tempos.
 
Mas o tempo passa, o tempo voa e a idade vem. Com ela, novas perspectivas, novos objetivos, novos sonhos. Lennon encontrou uma japa que era a sua cara-metade e direcionou sua atenção para seu novo amor. Paul, apesar do saco cheio do desgaste interno já estava devidamente casado com Linda Eastman mas ainda era o que tentava manter uma certa união entre os companheiros. George estava numas de misticismo e a vida material não lhe interessava mais. Ele estava mesmo afim de cantar mantras e ter um pouco de paz interior. Ringo, bom, Ringo ficava na dele, nem contra nem a favor, muito pelo contrário.
 
O documentário Let It be mostra as desavenças explícitas, tanto musicais quanto pessoais, que culminaram com o desfecho que todos conhecem. Mas, antes do fim, os caras se reuniram para nos brindar com o arrepiante Abbey Road, o canto do cisne dos Beatles. Me emociono quando falo sobre esse álbum que, na minha humilde opinião, é um disco perfeito. Nele está a pérola Something, que mostra o poder de fogo de George Harrison numa das músicas mais belas do século XX e todo o lado B , ou seja, de Here Comes The Sun até The End,  uma obra-prima absurdamente genial.
 
Com a separação, John fez uns discos razoáveis, como Imagine e Mind Games, deu uma parada para se reclusar em sua casa fazendo pão e cuidando do pequeno Sean enquanto a mulher cuidava dos negócios (a vida que eu pedi a Deus) até ser assassinado no dia oito de dezembro de 1980 por um débil mental. Pouco antes, deixou gravado um bom disco pop chamado Double Fantasy, onde dividia as canções com Yoko.
 
Paul manteve sua linha romântica em discos cheio de altos (Band On The Run) e baixos (McCartney II), fez algumas parcerias inusitadas e brilhantes, como as com Stevie Wonder, Michael Jackson e Carl Perkins, ficou viúvo, se casou de novo e mantém uma regularidade de cds lançados e shows pelo mundo. Ainda sonho em vê-lo um dia e gritar do gargarejo: Paul, I Love you porra!!!!
 
George, logo após a dissolução dos Beatles, fez coisas bem acima da média do que fazia enquanto Lennon & McCartney davam as ordens . Só um exemplo, o triplo All Things Must Pass é uma espécie de vomitada de tudo que estava segurando e que não tinha espaço nos discos da banda. Mas tenho um carinho especial pelo disco Cloud Nine, aquele em que ele parece o Falcão na capa. Apesar de uma vida saudável e uma paz encontrada na espitiritualidade desenvolvida no decorrer dos anos, George morreu devido a um câncer, cercado por sua família e deixando um legado musical que ainda vai ter sua verdadeira importância reconhecida.
 
Ringo sempre foi o coadjuvante dos Beatles. Sua simpatia era uma compensação à sua limitação como músico. Gravou álbuns sem maiores repercussões, fez filmes horríveis e ainda se apresenta por aí, com sua banda, tocando velhos sucessos que ninguém cansa de ouvir.
 
Dito tudo isso pare e pense um pouquinho, tentando imaginar como seria a música pop se os Beatles não tivessem existido. Considerando que 99% das bandas tem alguma influência, mesmo que indireta, do quarteto de Liverpool, o que estaríamos ouvindo hoje se Brian Epstein não apostasse nos meninos sebosos que tocavam no Cavern Club? Salsa, Merengue, Bossa Nova, Tango?? Sei lá. O que tenho certeza é que os Beatles vieram com uma missão na terra. Com uma música simples mas inesquecível, deixar o mundo um pouquinho menos difícil de se viver porque afinal, tudo que nós precisamos é o amor.

Por Marco Antonio Ribeiro

Facebook

AGENDA

<<  October 2014  >>
 Mon  Tue  Wed  Thu  Fri  Sat  Sun 
    1  2  3  4  5
  6  7  8  9101112
13141516171819
20212223242526
2728293031  

NEWSLETTER

Deixe seu nome e e-mail para receber nossa newsletter.