Manic Street Preachers
Written by Valdir Antonelli Thursday, 02 June 2005 21:00
Graças à curta carreira, fica impossível separar a retórica, graças às letras politizadas, da música e também da vida dos membros do Manic. Principalmente quando vemos que a imagem do grupo é totalmente associada ao guitarrista Richey James, responsável por boa parte das letras do grupo. E, enquanto a música pop britânica estava sendo tomada por bandas que chupavam o Suede, os Manics não estavam preocupados com fama ou dinheiro, mas sim notoriedade. Várias bandas foram surgindo, seguindo os passos dos galeses, tanto que um novo rótulo foi criado para estes grupos, eram a new wave da new wave.
Mas vamos de história. James Dean Bradfield (vocal), Nick Wire (baixo), Sean Moore (bateria) e Flicker (guitarra), montaram, em 1986, o grupo Betty Blue. Dois anos depois Flicker deixa o grupo, que resolve trocar também de nome, passando a se chamar Manic Street Preachers. Mais dois anos se passam e Richey James, um estudante da Universidade Swansea, em Wire, que era apenas o motorista da banda, é chamado para assumir o lugar de Flicker. Começam a gravar algumas demos e lançam um single, chamado Suicide Alley, em agosto do mesmo ano. Suicide Alley soava como uma cover dos primeiros trabalhos do Clash, indicando o caminho que a banda iria seguir, um mix de punk com hard rock. Um ano depois, um novo single e a New Musical Express cita a banda com entusiasmo, mas não passa disso.
Tanto foi, que os Manics eram umas das poucas bandas, incensadas pela crítica, que entravam nos anos 90 sem terem estourado. Isso durou até 1991, quando sai o EP New Art Riot. Dois singles extraídos do EP, Motown Junk e You Love Us se transformaram nos primeiros hits do grupo, com o público cantando a plenos pulmões nos shows, e com suas letras aparecendo como slogans nas camisetas usadas pelos fãs. Tudo isso criou um certo alvoroço na mídia musical inglesa, que iria culminar com uma entrevista à New Musical Express em maio de 1991. Durante a entrevista, que estava sendo conduzida pelo jornalista Steve Lamaq, Richey é questionado sobre a autenticidade do Manic Street Preachers. Em resposta ele escava a própria pele e escreve ´4 Real´ em seu braço. Muitos jornalistas falam que o ato foi apenas uma estratégia de marketing, feito para chamar a atenção de outras revistas e fãs. Se foi, acabou funcionando, os Manics foram contratados pela Sony, mas o que poderia apenas ser uma brincadeira, na verdade indicava a instabilidade mental de James, já que em diversos shows ele se auto-mutilava.
O primeiro single lançado pela Sony é Stay Beautiful, de 1991, que entra diretamente no top 40 da parada inglesa. No ano seguinte eles relançam You Love Us, e novamente, entram bem nas paradas, agora chegando ao top 20. Neste mesmo ano, em fevereiro, sai o primeiro álbum completo, Generation Terrorists, uma gravação que o grupo compara à estréia do Guns n´roses, Appetite for Destruction. Começam a cultivar um grande número de fãs, muitos graças ao visual glam, outros graças ao nome da banda, já que liam os mesmos escritores, de onde os Manics tiraram o nome.
Seu segundo lançamento pela Sony é um EP com apenas 4 músicas, sendo uma delas uma versão para Suicide Is Painless (Theme from M*A*S*H), série de TV americana. A canção se transforma no primeiro top ten do grupo. Enquanto isso o baixista Wire e o guitarrista James começam a ganhar notoriedade com suas provocações à mídia musical inglesa, o que rendeu diversos artigos negativos para o grupo, que acabou sendo jogado de lado pelos jornalistas. Tentando voltar à paz, o disco seguinte, Gold Against the Soul, foi considerado mais polido e pop em relação a seus anteriores, mas não se tornou uma unanimidade entre a crítica.
Logo depois do lançamento de Gold Against the Soul, os primeiros problemas internos aparecem, principalmente causados por James, mas foi Nicky Wire quem deixou todos da banda perplexos, quando disse que o líder do REM, Michael Stipe, estava morrendo de AIDS. Mas a verdadeira dor de cabeça é Richey James, com seus problemas de alcoolismo e anorexia, além de prolongadas crises de depressão que, invariavelmente, caiam na auto-mutilação. Um dos casos mais conhecidos foi quando Richey pegou uma faca de um fã, na Tailândia, e cortou seu próprio peito. Como o guitarrista não dava sinais de melhora, no começo de 1994, ele foi internado em uma clínica, e o grupo fez diversos shows como um trio.
A doença mental de Richey vem à tona com o terceiro trabalho da banda, The Holy Bible, gravado em um bairro barra pesada no País de Gales. The Holy Bible é um disco frio, desolador, mas que foi aclamado pela crítica quando lançado, em 1994. Infelizmente o futuro dos Manics era incerto, Richey James estava a ponto de explodir, mas, mesmo com crises cada vez mais rotineiras de depressão e anorexia, ele conseguiu criar um dos melhores discos da década passada e a carreira do Manic Street Preachers estava crescendo, já que eles estavam cada vez mais requisitados pela mídia, com várias entrevistas e com uma turnê pelos Estados Unidos sendo agendada. Tudo isso deve ter contribuído para que, no dia primeiro de fevereiro de 1995, Richey James deixasse seu hotel em Londres, dirigisse até seu apartamento em Cardiff e desaparecesse sem levar seus documentos, dinheiro ou cartões de crédito.
Algumas semanas depois ele é dado como desaparecido e seu carro é encontrado abandonado na Severen Bridge, em Bristol, ponte conhecida por seus inúmeros suicídios. Poucos meses depois ele é dado como morto pela polícia, mas, até hoje, sua família se recusa a considera-lo morto, e a banda continua creditando o dinheiro dos direitos autorais, diretamente em uma conta em seu nome.
Em dezembro de 1995, a banda reaparece abrindo um show para os Stone Roses, e lançam, em maio do ano seguinte, o álbum Everything Must Go, que teve como primeiro single A Design for Life, uma das músicas mais conhecidas da banda. Everything Must Go traz, ainda, algumas canções escritas por Richey, que foram retrabalhadas pelos membros remanescentes. O disco se tornou um dos mais vendidos na Inglaterra, ganhando ótimas críticas, e os Manics se transformam em rock stars, pelo menos para os ingleses. Só que pagaram um preço alto quando renegaram o passado revolucionário da banda, deixando as letras políticas de lado. Afinal perderam parte daqueles primeiros fãs, que achavam que a banda havia se tornado um tanto arrogante.
Everything Must Go não foi apenas um disco que vendeu milhares de cópias, mas foi o trabalho que deixou a banda conhecida no mundo inteiro, menos nos Estados Unidos. O disco só foi lançado na América no final de 1996 e o grupo saiu em turnê por lá junto com o Oasis, o que não deve ter ajudado muito, já que o Oasis, até hoje, também não conseguiu muito sucesso na terra do tio Sam. Mesmo assim eles tiveram uma boa recepção, que foi atrapalhada pelas brigas internas dos irmãos Gallagher, que fizeram o Oasis cancelarem a turnê, deixando os Manics sozinhos.
Voltando para o Reino Unido, a banda recebe diversos prêmios pelo trabalho e voltam ao estúdio para a gravação de um novo disco. Sem muita pressa, o sucessor de Everything Must Go, sai apenas em agosto de 1998. This Is My Truth Tell Me Yours, também é um estrondoso sucesso de vendas na Inglaterra, Europa e Ásia, mas não é lançado nos Estados Unidos, o que força a banda a processar sua gravadora, a EPIC (atual Sony), quebrando o contrato com eles para os Estados Unidos. Simplesmente nenhum outro selo se interessou em lançar o disco nos Estados Unidos, mas o trabalho recebeu vários discos de platina pelas vendas na Inglaterra. O grupo, então, assina com a Virgin, para ter o trabalho lançado na América, e o disco sai por lá, apenas em junho de 1999.
Em 2001 lançam um novo álbum, Know Your Enemy, um disco que marca a volta da banda às letras políticas e tem um ar um tanto desolado. Este disco traz um Manic Street Preachers tentando se reinventar, mas na verdade é apenas um disco menor, comparado a seus antecessores, mesmo sendo um trabalho fascinante, já que mescla as baladas, já conhecidas da banda, com o retorno ao rock do começo da carreira, quando eram comparados ao Clash.
Entre 2002 e 2003, duas compilações são lançadas, a primeira Forever Delayed, com os hits do grupo. Em 2003 sai Lipstick Traces, que vem com todos os lados b´s lançados em singles, além covers e raridades.
No final de 2004 é lançado o disco Lifeblood, sétimo do grupo, que recebe dezenas de críticas negativas. O trabalho vem carregado de sintetizadores e flertando com a música eletrônica, a mesma música eletrônica que eles combateram no começo da carreira, mas é um disco, assim como o anterior, Know Your Enemy, interessante, mesmo sem ter a força de antigamente.
Por Valdir Antonelli




