Friday Oct 24

Aborto Elétrico

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foto_abortoNuma noite, uns amigos levaram Fê a uma festa onde a vitrola tocava música do Sex Pistols, Ramones e The Clash, as mesmas que Fê Lemos ouvia na Inglaterra. Querendo saber quem era o dono dos discos, Fê foi apresentado a um sujeito estranho, que usava camisa social e andava segurando uma capanga numa mão e um guarda-chuva na outra. Era o Renato Russo. Foi uma afinidade imediata por causa daqueles discos e ele passou a freqüentar a minha casa todo dia, lembra Fê. Logo Renato estava enturmado na Colina, onde viria a se formar o maior núcleo da maioria das bandas de Brasília.

No começo era apenas uma turminha de garotos que gostavam de punk rock e se reuniam para ouvir música, tomar porres de vinho Chapinha, fumar baseado e cheirar benzina de vez em quando. Às vezes, o clima pesava, Renato e Fê dopados e entediados, sentavam-se na escada de serviço de um dos prédios para conversar. Renato no degrau de cima e Fê no de baixo. De repente, sem aviso Renato começou a fazer xixi nas calças. Fiquei chocado, provavelmente era o que ele queria. Levantei xingando e fui para casa. Ele ficou lá todo molhado, conta Fê. Nessa noite, como em muitas outras, Renato voltou para casa a pé, uma caminhada de pelo menos duas horas pela escuridão da madrugada. Renato ainda não tinha 20 anos. Chocar as pessoas era uma de sua prioridades.

Renato Russo respirava música. Seu quarto era um festival de colagens, mais de 500. Tinha tanta coisa para ver que quem entrava ali podia ficar horas de olhos grudados nas paredes. Havia também um imensa coleção de discos e livros e um aparelho de som com quatro caixas, o melhor da cidade. Era nesse quarto que ele enfrentava o tédio das tardes de Brasília. Renato era um tipo aglutinador. Ligava para todos da turma, marcava os encontros, tinha idéias para atividades em grupo e quando começava a falar era difícil faze-lo parar. Extremamente bem informado, tinha uma cultura vasta e adorava planejar o futuro de sua própria vida.

Tinha gente em Brasília que o achava chato. Pelo menos quando bebia demais e resolvia espalhar seu excesso de amor nos bares da cidade. Ainda em 1978, Renato conheceu André Pretorius, que andava na cidade vestido de punk e era filho de um diplomata da África do Sul. Pretorius e Fê haviam combinado montar um banda com André Muller, que estava morando na Inglaterra. Mas Renato precipitou os acontecimentos e convidou Fê e Pretorius para formar uma banda com ele no baixo, Fê na bateria e Pretorius na guitarra. A gente tava na Colina sentado no chão pensando qual ia ser o nome da nossa banda. Eu tava com um negócio de elétrico na cabeça e alguém falou tijolo elétrico. Aí André Pretorius falou: não, Aborto Elétrico, recorda Fê. Segundo ele, a versão de que o nome da banda é por causa de um cassetete elétrico, usado pela polícia de Brasília em atos de repressão, não é verdade.

Renato escreveu I want to be a junkie na parede do quarto, apesar de nunca ter sequer visto as drogas realmente pesadas. E começou a compor o repertório do grupo. Estava formada a mãe de todas as bandas de Brasília. Os ensaios do Aborto Elétrico aconteciam na própria Colina e o primeiro show foi em 1980, no centro comercial Gilberto Salomão, num barzinho chamado Só Cana. Era um show instrumental, Renato não cantava, André Pretorius quebrou a palheta e cortou os dedos nas cordas, continuando a tocar enquanto o sangue escorria.Foi o primeiro e único show do Aborto Elétrico com Pretorius na guitarra. Ele foi para África do Sul servir ao exército de lá, naquela época dramaticamente envolvido na manutenção do Apartheid. Quem estava no Só Cana gostou. Nos colégios de Brasília começou a correr a notícia de que uns punks maconheiros tocavam uma música violenta. Os playboys da cidade não gostaram, e quando as turmas se encontravam, o pau comia.

Para Fê, a gente tava fazendo algo com nossas vidas, mexendo no ambiente onde a gente vivia, e isso despertava curiosidade e inveja. Logo, outros garotos seguiriam os passos do Aborto Elétrico, formando as bandas e detonado o fenômeno musical do rock de Brasília. Anos mais tarde, em entrevista à Sônia Maia publicada na BIZZ, Renato disse que o Aborto Elétrico acabou virtualmente quando Pretorius foi para África do Sul matar negros. Flávio Lemos, irmão de Fê, assumiu o baixo no Aborto Elétrico e Renato pegou a guitarra. Os ensaios aconteciam no Lago Norte. Essa mudança para o Lago Norte também marca o começo do fim da turma da Colina, que passou a ter um novo ponto de encontro. Na nova casa de Fê, cercada por lindas árvores do cerrado, a turma fazia camisetas, cartazes e música no intervalo dos baseados. Renato sempre chegava com a idéia das letras e os acordes na guitarra. Ficava fácil, porque as idéias que ele trazia floresciam na banda, lembra Fê. Ele era um puta baixista também. As músicas raivosas e radicais, falavam muito em morte. Renato era um catalisador de sofrimentos na sua poesia, embora fosse doce e delicado no convívio diário.

Ainda em 1980. Pretorius voltou para umas férias em Brasília e participou dos ensaios cruciais para criação de Música Urbana, Que País É esse, Veraneio Vascaína, Conexão Amazônicae Baader-Meinhof Blues, todas músicas que teriam grande impacto no rock brasileiro. Em 1985, André Pretorius morreu de overdose nos Estados Unidos.

O auge do Aborto Elétrico aconteceu em 1981. Foram vários shows com outras novas bandas de Brasília, todas originárias de alguma forma da turma da Colina: Blitx, Plebe Rude, formado pelo André Muller, Fusão, 5º Coluna. No meio do ano, Ico Ouro Preto assumiu a guitarra do Aborto Elétrico e Renato passou a se ocupar apenas dos vocais. O cantor, compositor e ex-guitarrista do Aborto Elétrico, Renato Russo, vivia falando como seria sua vida numa banda de rock. O grupo estava em plena atividade nas festinhas, nos colégios e em festas de aniversário. Mas para ele era pouco.Renato sonhava acordado. Fê Lemos não tinha tanta urgência em deixar a inocência do amadorismo. Nas férias, eu ia pra praia e ele ficava em Brasília, uma ansiedade muito grande de ver alguma coisa acontecer. Eu era muito garotão, a fim de curtir, tocar numa banda. Renato tinha outros planos. Ele desenhou até a capa que nosso disco ia ter, era um enforcado num bosque. Acho que essa diferença de atitude entre nós foi um dos motivos do fim do Aborto. O fim do Aborto Elétrico aconteceu em março de 1982. Na Bizz, ainda falando a Sônia Maia, Renato disse que o grupo terminou numa briga por causa da música Química. Segundo Renato, Fê lhe disse que Química era muito ruim e o acusou de ter perdido o jeito de fazer música. Renato respondeu que Fê só queria ficar fazendo camiseta e pediu o boné.

Fê Lemos concorda que foi esse o momento da ruptura do Aborto, mas o clima entre os dois não estava bom havia algum tempo. Achei Química horrível. Não tinha nada a ver com o que a gente fazia, com o que a gente era. Pô, o Renato era ótimo em química, eu também. Achei que ele tava forçando a barra. Que bobagem minha! Hoje a música é um clássico. Aconteceram outra brigas entre Fê e Renato. Uma delas foi no dia do primeiro aniversário da morte de John Lennon, um dos grandes ídolos de Renato. Fomos fazer um show numa cidade satélite e o Renato tava super sentido. Eu fiquei com ciúme. Quando ele errou uma música, atirei uma baqueta nele e acertei na cabeça. Ele me olhou com uma cara horrível e sumiu depois do show. Aí saquei o que eu tinha feito. Fui na casa dele e só faltou me jogar aos seus pés. Era uma amizade muito forte, tinha um quê de mágico, porque nos conhecemos através dos discos de punk.

Renato Russo e Fê Lemos tinham 22 e 20 anos, respectivamente. Até aquele momento eram os principais líderes da turma de Brasília, os fundadores do Aborto Elétrico, a primeira banda punk da cidade, os aglutinadores do movimento. Mas o fim do Aborto Elétrico mudou destinos e separou amigos em bandas diferentes.

Depois que a gente montou o Capital Inicial e o Renato formou a Legião Urbana, a coisa não era mais a mesma entre a gente. Acho que ele se sentiu traído. Ele esperava mais, até num sentido de amor, e eu não percebia isso. Ele guarda segredos que eu não conhecia, apesar de ter convivido com ele por cinco anos, unha e carne. Mesmo sem Renato Russo, Fê tentou manter o Aborto Elétrico, afinal eles já tinham uma certa fama no circuito alternativo de Brasília. Como numa despedida oficial, Fê chamou Renato para uma última apresentação com o grupo. Renato foi e o Aborto Elétrico teve sua derradeira aparição. Seis meses depois Fê foi convidado a entrar no Capital Inicial, Flávio foi com ele.

No final de 2005, o Capital Inicial regrava várias canções do Aborto Elétrico e lança um novo CD.

Fonte: www.legiaourbana.hpg.com.br com revisão de Valdir Antonelli

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